O Plebeu
Ela me disse que me amava e eu, embevecido, fui logo me olhar no espelho, para ver-me nele refletido como o homem que ela enxergava em mim. Por minha conta, ao final da frase dela acrescentei “pra sempre” e, para que esse devaneio durasse bastante, fi-la indefinidamente esperar pelo meu amor.
Ela ficava tão linda chorando, meu Deus! Tinha uns olhos pequenos, vivos, parecia um pequeno passarinho. Instava comigo, queria ser amada, queria que ser correspondida, queria, queria, queria, queria... E eu só queria me olhar no espelho dos olhos dela, pra me ver forte, corajoso, capaz de qualquer proeza.
Deixou-me permanecer no trono do seu coração durante quase seis meses. Neste tempo, eram meus todos os seus pensamentos, minhas todas as suas palavras, seus esforços, seu carinho. Estava sempre tão linda, tão amável, atenciosa. Eu, confortavelmente sentado em meu trono, observava de cima as peripécias de minha súdita. Não senti qualquer pressa, nem tive qualquer intenção de corresponder aos esforços dela. Eu era o rei, afinal! Não seria conveniente unir-me à plebe.
Um dia, porém, houve uma revolta. Ao olhar nos olhos dela, não vi mais reflexo algum. Quando tentei subir ao trono, não o encontrei. Em seu lugar, havia uma estátua que, olhando assim, de longe, parecia ter o próprio rosto dela. Eu, jovem rei ainda, não sabia da efemeridade do poder. Enquanto eu olhava estátua, ainda sem entender onde tinha ido parar o meu trono, fui abruptamente tomado de onde estava por indivíduos desconhecidos. Sem que eu tivesse tempo de protestar, fui conduzido à masmorra e aqui me encontro. Agora, aqui sozinho, percebo que a majestade que me envolvia era fruto do espelho mágico dos olhos dela. Não passo, e nunca passei, de um simples plebeu diante dos olhos de uma verdadeira rainha.

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