segunda-feira, março 13, 2006

Sandálias douradas

Cheguei atrasada ao meu último encontro com ela. Minha mente estava tão cansada, meus nervos adormecidos pelo golpear contínuo da ventura e da desventura, que ao deitar pra descansar por uma hora, acabei dormindo mais do que planejava. Enquanto eu dormia, um mundo de imagens confusas invadia minha mente, todas calçadas no par de sandálias douradas que eu dei pra ela. Descaradamente vaidosa e dona de uma amizade infantil por mim, satisfiz-lhe duplamente comprando pra nós duas pares de sandálias douradas iguais. Ela recebeu o presente como quem aceita uma aliança de compromisso, sendo essa apenas mais uma das muitas formas de compromisso que inventamos no decorrer do tempo.

Éramos da mesma idade quando nos conhecemos. Tínhamos, então, doze anos, mas esse detalhe eu só soube muito depois. Isso porque, na ocasião, ela me assegurou ter quinze e eu, que nesse ato inaugurei meu papel de mais ingênua da dupla, sempre acreditei no que ela me dizia. A princípio, achei-a encantadora, forte, cheia de direitos e razões, sempre disposta a lutar com toda convicção pelas coisas que queria. Eu, que então vivia pisando em ovos pelo mundo, em tudo duvidosa, em tudo insegura e quase miserável, só podia me apaixonar por aquela criatura forte e decidida. Não imaginava, no entanto, que a minha pouca decisão e minha fraqueza despertariam nela um sentimento muito forte, quase materno. Dali por diante, éramos eu e ela contra o resto do mundo. Ao seu lado, eu era como uma plantinha rasteira à sombra de um baobá, protegida do sol forte, do vento, da chuva.

Vivemos juntas muitas aventuras, muitas cenas fortes, algumas que eu me deleito relembrando, outras que eu daria o mundo pra esquecer. Nossa vida foi como um diário escrito a quatro mãos, com frases dolorosas, outras cheias de poesia mas, acima de tudo, nenhum erro de ortografia. Minha companheira de aventuras era uma exímia escritora na literatura da amizade.

Apesar de tanto amor, éramos muito diferentes. Seu desejo ardente era constituir família, ser mãe, ter casa. O meu era viajar, conhecer o mundo, ter asas. O destino, que se acha muito engraçado, fez conosco uma piadinha sem nenhuma graça. Podendo ter me feito estéril, o que pouco me importaria, fez-lhe a ela. Depois de casada, quando achava que realizaria seu sonho, ela tentou seis vezes ser mãe, em todas perdendo seus bebês antes que chegassem a nascer. Não pude acompanhar seus padecimentos, sequer saber dos problemas que enfrentava, pois o marido que escolheu queria-a só para si e fez com que ela escolhesse entre mim e ele. Eis aí o único erro de ortografia que ela cometeu. Erro que nos custou quase dez anos separadas e a ela um casamento tortuoso.

Aproveitei esse tempo para também realizar o meu desejo, estender minhas asas e sair voando pelo mundo livremente. Um dia, no meio de um dos meus vôos, por acaso encontrei-lhe na rua. Estava diferente, com uma cara de mulher madura e, quando me contou as coisas pelas quais tinha passado, verifiquei que tinha colhido frutos amargos pela escolha que fizera. De qualquer forma, ofereceu-me com humildade fio da amizade que um dia nos unira, e a mim restava, se quisesse, pegar a ponta que me cabia para que pudéssemos percorrer, unidas por ele, o resto do caminho da vida. Não me furtei a fazê-lo, pois também pra mim fora amargo ficar longe dela por tanto tempo.

Era, depois de dez anos, a mesma menina que eu conhecera, embora agora estivesse mais madura e não fizesse mais questão de ser mais velha do que eu. Impetuosa na luta pelas coisas que desejava, já estava novamente casada, dessa vez com alguém à sua altura. Continuava trabalhando pela realização do sonho de ser mãe, não aceitando que o destino impusesse limites aos sonhos que tinha pra si. Tive o prazer de vê-la vencer sua luta no dia em que teve um menino, a quem deu o nome de um anjo. Mandei gravar na pulseira de ouro que comprei para presenteá-lo: Gabriel. Minha árvore finalmente conseguia dar à luz seu fruto.

Novamente em sua companhia, alcancei as maiores conquistas de minha vida.
Em todas, acompanhada de e aplaudida de pé por ela. Nos fracassos, chorava em seus braços, onde encontrava consolo e renovava minhas forças. Eu já não era mais a plantinha rasteira que fora um dia, mas a sombra do baobá continuava sendo uma proteção contra o sol inclemente dessa vida. E por falar em vida, ficamos sabendo que mais uma chegaria ao mundo. Minha amiga estava grávida, seria mãe novamente.

O tempo passou voando, a gravidez chegou ao final. Falei com ela na sexta-feira pela manhã, antes de sua saída de casa para o hospital. Estava combinado nosso encontro no dia seguinte, sábado pela manhã, quando eu conheceria o mais novo fruto da minha árvore. Mandei fazer outra pulseira de ouro, dessa vez com nome de imperador romano: Marcus. As pulseiras de ouro eram mais uma forma de aliança, que agora já não comprometiam só duas pessoas, mas quatro de uma vez.

O destino deve mesmo se achar muito engraçado, mas não achei graça nenhuma quando recebi, no meio da madrugada, uma ligação avisando que minha amiga estava morta. Morreu de parto, deixando os dois filhos que tanto desejou e também o marido, a quem tanto amava. Sonolenta como estava, demorei a entender o que estava acontecendo, e tive esperança de estar apenas tendo um pesadelo, graça que o céu não me concedeu. Aquela manhã por que tanto esperei, julgando que seria de pura felicidade, foi de luto, de desgraça, de orfandade. Senti-me fraca, indefesa e miserável diante daquele machado gigante a golpear as plantas do nosso jardim tão lindo, cortando a árvore frondosa que me dava sombra e abrigo, deixando-a despedaçada diante dos meus olhos.

Acordei atrasada, calcei-me de dourado e fui correndo pro enterro, minha seiva escorrendo ainda fresca pela ferida no meu peito. Metade do meu coração jazia no caixão, sem vida, de sandálias douradas. O sol, inclemente, feriu minha cabeça e me cegou os olhos. Desde aquele dia, ando mais fraca pela vida afora, pra sempre insegura, pra sempre miserável e com a sensação de uma perda que jamais se dissipará.

1 Comments:

At 12:31 PM, Anonymous Alexandre Alcantara ( Esposo eternamente apaixonado da Michelle)o said...

Lindo amiga. Muito obrigado pelo carinho e belo relato. A Michele também lhe amava como irmã. Vc mora em nosso coração.

 

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