sexta-feira, setembro 02, 2005

O beija-flor

O pássaro veio sobrevoando a ruela de subúrbio quando deu de cara com a menina. Era o filhote de homem mais bonito que já tinha visto na vida. Tinha uns cabelos que lhe lembravam dos campos de trigo que já vira nos seus vôos pelo mundo e a boquinha era mais doce que a mais bela das flores que beijara nas campinas.

A menina, por brincar distraída no seu mundo infantil, não se deu conta da presença do pássaro. O beija-flor, querendo chegar mais perto daquele ser que tanto lhe atraía, veio voando cada vez mais baixo, pousando nos galhos que estavam perto dela, e, depois do que pareceu a ele uma pausa angustiosa, ela finalmente deu-se pela sua presença. Dentre os poucos pássaros que havia visto em sua ainda breve existência de criança, ele era o mais exótico de todos. Cabeça de penas muito negras, corpo todo vermelho, uns olhos que pareciam os do boneco japonês do desenho animado da televisão. Mesmo na sua ingenuidade de criança, sabia que não era normal que os pássaros, seres tão fugidios, pousassem assim tão próximos das meninas de três anos, tão ao alcance de suas mãos curiosas. Sabendo disso, deu um gemidinho de prazer e estendeu a mão em sua direção.

O pássaro sabia que a operação era arriscada, deixar-se ser acariciado pelas mãos daquela criatura de natureza tão diversa da sua, mas mesmo consciente de todo perigo que aquilo representava, deixou-se ser agarrado por ela. De perto, a pequena era ainda mais bonita. Parecia algum tipo de ser maravilhoso, superior aos outros todos que já vira e a atração que aquele olhar da cor das folhas exercia sobre ele era semelhante à que sentia pelas flores, mas numa escala tão superior que era impossível opor-lhe resistência. Com o coração batendo acelerado, se deixou ser sugado, explorado e exaurido pela curiosidade da menina, que de tão admirada e feliz não parava de sorrir, fechando os olhinhos e tornando-se, então, insuportavelmente mais doce e atraente do que já era.

A menina mal podia acreditar no que lhe acontecia. Na doçura inocente dos seus três anos de idade, aninhou o passarinho em seu colo, como os adultos faziam com ela, quando lhe queria mimar. Ela tinha mil bichos de pelúcia, ursos, gatos, vaquinhas... Mas aquele pássaro era de longe melhor que todos os brinquedos, doces, programas de tv ou histórias da hora de dormir. Ela o acariciava e o beijava e cantava para que ele dormisse, enquanto ele se entregava ao som da música que saía dos lábios dela, esquecendo-se ser ele mesmo cantor por natureza. Ela queria retribuir àquela mágica criatura por ter escolhido seu colo, entre tantos outros, fazendo-a sentir-se especial entre todas as outras crianças, posto que nenhuma outra que ela conhecia tinha um amigo passarinho.

De um salto, levantou-se e saiu andando em passos cambaleantes e apressados, com ele em suas mãos. Era preciso escondê-lo das outras crianças, que haviam de querer tirá-lo dela. Era preciso também mantê-lo a seu lado, pois queria prevenir-se da possibilidade de que o bicho mudasse de idéia e não quisesse mais ser seu amigo. Sua existência, até então solitária e tranqüila, no meio de seus brinquedos sem vida, com sorrisos imutáveis, agora se enchia ao mesmo tempo de felicidade e de angústias, na mesma medida. A felicidade de ser escolhida pelo pássaro trazia em seu rastro ameaças das quais ela queria fugir. Entrou no seu quarto colorido, e, tomada de medo, parou por um momento para escolher o melhor lugar onde escondê-lo.




O pássaro assustou-se ao se dar conta do que lhe estava para acontecer. Não sendo capaz de compreender impulso humano, e não dispondo de muito tempo para começar a agir e evitar que o desfecho fosse trágico, num golpe de asas ele se soltou e começou a voar pelo quarto, em busca de saída. A menina, percebendo que tudo o que mais temia acabava de acontecer, caiu num desespero que lhe banhava os olhos de lágrimas.

Se aquela criatura deixando-se colher pela sua mão pequenina a fizera sentir tão especial, arrancava-lhe agora do coração, com aquele gesto, todas as alegrias que lhe dera, deixando apenas um lugar vago, que antes não existia. Não era apenas uma questão de voltar aos brinquedos sem vida, mas de sentir a dor de uma ausência que antes não conhecia. O pássaro lhe dera aquela felicidade somente para tomá-la de volta, mais tarde? Que tipo de criatura poderia ser tão maquiavélica?

Num ímpeto de vingança, tomou seus bichos de pelúcia na mão e, geniosa que era, atirou todos na direção do pássaro, que tentava esquivar-se dos golpes, sem entender como as mesmas mãos que no instante anterior o cobriam dos mais doces afagos, agora agiam com tamanha violência. Não queria ficar aprisionado, tinha que beijar as flores, era sua profissão. Por mais doce que fosse a menina, sem beijar as flores ele morreria. Sem conseguir entender a natureza dos seres terrenos e sem achar a saída do quarto, pousou atrás de uma boneca sobre uma prateleira, no alto, e deixou-se lá ficar para, na primeira oportunidade, sair voando daquele sonho que se tornara pesadelo.

Logo o que, a princípio, fora admiração, torna-se desgraça, quando os dois descobrem que o amor dos pássaros e das meninas era incompatível. O amor humano só se desenvolve no solo da segurança, enquanto o amor dos pássaros usa como alimento a liberdade. As flores, que se deixam beijar quando são desejadas, jamais estendem as mãos para capturar quem as beija. Enquanto as meninas de três anos, tão indefesas, não podem viver sem alguém que lhes cuide, as proteja e esteja sempre a seu lado, em qualquer situação. Incapazes de compreenderem mutuamente suas naturezas diversas, beija-flor e menina saem magoados da história que começou tão linda, desejando que antes não houvessem conhecido a felicidade, do que tê-la nas mãos num momento para não tê-la mais, no seguinte, pois suas cinzas invariavelmente transformam-se em amargura.