Admiradora Secreta
Estávamos numa festa e, enquanto ele falava, eu tive vontade pedir a todas as outras pessoas que se calassem, pra que eu pudesse gozar melhor o prazer de escutar cada palavra que ele dizia. Enquanto ele falava, o dia foi ficando mais bonito, as plantas que dançavam ao sabor do vento, atrás dele, ficaram mais verdes. Até os passarinhos, cantando, pareciam entender o que estava acontecendo ali. Eu fui a única que demorou pra entender.
Na verdade, só agora eu percebo porque fiquei tão desorientada ao conhecê-lo e porque demorei tanto a descobrir que estava apaixonada. Foi como se eu estivesse passado toda a vida numa câmara escura e, de uma hora para a outra, sem qualquer aviso prévio, tivessem aberto as portas diante de mim, num dia de sol, ao meio dia. Fiquei desorientada com tanta luz e soube, no momento em que o vi, que esse tempo todo eu estive sentindo falta de algo, e que esse algo era ele. Mas essa descoberta foi tão chocante que não me dei conta, durante muito tempo, que se tratava de uma paixão. Fiquei perdida, achei que estivesse louca, idolatrando uma pessoa que eu mal conhecia. Agora, entretanto, começo a enxergar direito, vejo a ponta da flecha do cupido enterrada no meu peito.
Na única oportunidade em que estivemos a sós, passamos uma noite inteira juntos, jogando conversa fora, e tudo me parecia tão engraçado que eu esqueci do mundo lá fora pra me dedicar somente ao prazer de estar com ele. Quando ele se virava, eu prestava atenção nos seus contornos masculinos, nos braços fortes, nas costas queimadas de sol, nos seus cabelos pretos e volumosos que eu tinha vontade de segurar em minhas mãos. Nem mesmo nesses momentos me dei conta, mas lembro agora que eu me transformava numa loba voraz, me dou agora conta do esforço que eu fazia para conter meus uivos e meu desejo de atacá-lo com garras e dentes afiados. A paixão era uma mina escondida e meu coração não tinha o mapa pra chegar até ela.
A grande descoberta foi na noite em que sonhei que ele aparecia nu na porta do meu quarto, no meio da madrugada, e me dizia: “Estou aqui. Cheguei agora.” E aquela imagem era tão real que eu não desconfiei que estava sonhando e no meu sonho eu pensava: “Ai, que bom que ele veio! Que bom que veio sem roupa!” E era tão saboroso ficar reparando em cada pelo do seu corpo, enquanto me invadia uma dolorida vontade beijá-lo todo, sem hora pra parar. Era como se ele fosse uma maçã, que eu me preparava em segredo pra devorar com mordidas imensas e caudalosas quando, sem que eu pudesse executar meu plano, o sonho acabou e eu me descobri num pesadelo. Eu estava sozinha, sem tê-lo nu ao alcance da mão, sem poder beijá-lo ou pelo menos admirá-lo, morrendo de fome e de desejo, sem ter a maçã que me saciasse.
De manhã, era eu novamente sozinha, mas já não era mais a mesma mulher que vivera até o dia anterior. Meus amigos, minha mãe, minha casa e minhas irmãs eram os mesmos, mas eu não e eles sequer desconfiavam. Descobri, nessa manhã, que eu era só a metade de tudo que pensei que era. Até aqui, eu me sentia inteira, mas, a partir deste momento, me dei conta de me faltava uma parte. Eu sou a metade de mim e a outra metade é ele. Meus olhos vêem pela metade, se os olhos dele não estão me guiando. Minhas mãos tocam, escrevem e apontam pela metade, se as mãos dele não estão nas minhas. Minha mente pensa meios pensamentos, incompletos, inacabados, se ele não me ajuda com seus pensamentos brilhantes. Meus beijos são incompletos, se a boca do outro lado não é a dele, minha fala é deficiente e meu canto desafina. Até os idiomas que eu pensei que falava, descobri que não falo. Não falo inglês, nem alemão, nem português eu sei falar. Falo um dialeto ininteligível, só ele pode me entender.
Mas o meu amor é secreto. Não tenho coragem de revelá-lo. Já se passaram mais de três meses desde o dia em que tive o sonho, mas até hoje eu nunca pensei em contar.Vivemos uma amizade comum, como outra qualquer e, quando nos encontramos, me sinto espreitando-o por trás de um muro, olhando ele mudar de roupa no seu quarto, sem que ele me veja. Minha boca não fecha, fica sorrindo o tempo todo enquanto estamos juntos. Se ele me lança um sorriso, meu peito fumega. Se me faz um elogio, viro uma poça d’água no mesmo instante. Se manifesta um desejo, meu prazer é torná-lo realidade. Sempre senti isso, mas só agora descobri que eram sintomas de uma doença. Minha mente e meu coração estão adoecidos e a doença tem o cheiro e os olhos e o nome dele.
Na verdade, só agora eu percebo porque fiquei tão desorientada ao conhecê-lo e porque demorei tanto a descobrir que estava apaixonada. Foi como se eu estivesse passado toda a vida numa câmara escura e, de uma hora para a outra, sem qualquer aviso prévio, tivessem aberto as portas diante de mim, num dia de sol, ao meio dia. Fiquei desorientada com tanta luz e soube, no momento em que o vi, que esse tempo todo eu estive sentindo falta de algo, e que esse algo era ele. Mas essa descoberta foi tão chocante que não me dei conta, durante muito tempo, que se tratava de uma paixão. Fiquei perdida, achei que estivesse louca, idolatrando uma pessoa que eu mal conhecia. Agora, entretanto, começo a enxergar direito, vejo a ponta da flecha do cupido enterrada no meu peito.
Na única oportunidade em que estivemos a sós, passamos uma noite inteira juntos, jogando conversa fora, e tudo me parecia tão engraçado que eu esqueci do mundo lá fora pra me dedicar somente ao prazer de estar com ele. Quando ele se virava, eu prestava atenção nos seus contornos masculinos, nos braços fortes, nas costas queimadas de sol, nos seus cabelos pretos e volumosos que eu tinha vontade de segurar em minhas mãos. Nem mesmo nesses momentos me dei conta, mas lembro agora que eu me transformava numa loba voraz, me dou agora conta do esforço que eu fazia para conter meus uivos e meu desejo de atacá-lo com garras e dentes afiados. A paixão era uma mina escondida e meu coração não tinha o mapa pra chegar até ela.
A grande descoberta foi na noite em que sonhei que ele aparecia nu na porta do meu quarto, no meio da madrugada, e me dizia: “Estou aqui. Cheguei agora.” E aquela imagem era tão real que eu não desconfiei que estava sonhando e no meu sonho eu pensava: “Ai, que bom que ele veio! Que bom que veio sem roupa!” E era tão saboroso ficar reparando em cada pelo do seu corpo, enquanto me invadia uma dolorida vontade beijá-lo todo, sem hora pra parar. Era como se ele fosse uma maçã, que eu me preparava em segredo pra devorar com mordidas imensas e caudalosas quando, sem que eu pudesse executar meu plano, o sonho acabou e eu me descobri num pesadelo. Eu estava sozinha, sem tê-lo nu ao alcance da mão, sem poder beijá-lo ou pelo menos admirá-lo, morrendo de fome e de desejo, sem ter a maçã que me saciasse.
De manhã, era eu novamente sozinha, mas já não era mais a mesma mulher que vivera até o dia anterior. Meus amigos, minha mãe, minha casa e minhas irmãs eram os mesmos, mas eu não e eles sequer desconfiavam. Descobri, nessa manhã, que eu era só a metade de tudo que pensei que era. Até aqui, eu me sentia inteira, mas, a partir deste momento, me dei conta de me faltava uma parte. Eu sou a metade de mim e a outra metade é ele. Meus olhos vêem pela metade, se os olhos dele não estão me guiando. Minhas mãos tocam, escrevem e apontam pela metade, se as mãos dele não estão nas minhas. Minha mente pensa meios pensamentos, incompletos, inacabados, se ele não me ajuda com seus pensamentos brilhantes. Meus beijos são incompletos, se a boca do outro lado não é a dele, minha fala é deficiente e meu canto desafina. Até os idiomas que eu pensei que falava, descobri que não falo. Não falo inglês, nem alemão, nem português eu sei falar. Falo um dialeto ininteligível, só ele pode me entender.
Mas o meu amor é secreto. Não tenho coragem de revelá-lo. Já se passaram mais de três meses desde o dia em que tive o sonho, mas até hoje eu nunca pensei em contar.Vivemos uma amizade comum, como outra qualquer e, quando nos encontramos, me sinto espreitando-o por trás de um muro, olhando ele mudar de roupa no seu quarto, sem que ele me veja. Minha boca não fecha, fica sorrindo o tempo todo enquanto estamos juntos. Se ele me lança um sorriso, meu peito fumega. Se me faz um elogio, viro uma poça d’água no mesmo instante. Se manifesta um desejo, meu prazer é torná-lo realidade. Sempre senti isso, mas só agora descobri que eram sintomas de uma doença. Minha mente e meu coração estão adoecidos e a doença tem o cheiro e os olhos e o nome dele.

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