quarta-feira, maio 04, 2005

Coração de Pérola

Era uma pessoa sozinha, muito sozinha. Até tinha família e também trabalhava, mas a solidão que carregava consigo independia de quem estivesse ao seu redor. Ainda que seu corpo estivesse em uma praia do caribe, com centenas de pessoas à sua volta, sua alma estava sempre no Pólo Norte, sozinha e calada, como um ancião de barbas longas. Seu corpo morava no mundo, mas seu coração era como uma pérola, que morava dentro de uma concha, no fundo do mar. Sabia que em algum lugar do mundo havia muitos amigos, sonhava em algum dia encontrá-los, fazer confidências, gozar de sua companhia para vencer a solidão que lhe escravizava, mas não sabia o caminho pelo qual se chegava até eles.

Algumas vezes apaixonou-se, mas não foi correspondida. Outras vezes, apaixonaram-se por ela, mas então era ela quem não correspondia. Não fazia muito caso desses acontecimentos e ia assim, nesse esconde-esconde de paixões, até que um dia encontrou alguém por quem foi mortalmente ferida de paixão. Aquele sentimento era diferente de tudo que conhecera até ali: não tinha como esconder de si mesma aquele sentimento, como fizera das outras vezes. Abriu um buraco no chão e tentou enterrá-lo, mas, ao contrário de morrer sufocado, o amor brotou, como uma planta, e deu frutos, tornando-se ainda maior do que fora antes. Não tendo mais como fugir ou esconder-se dele, traçou um plano estratégico e partiu para conquistar o que seria o maior de todos os seus bens.

A briga foi sangrenta, pois o alvo do seu amor tinha um coração vagabundo. Ela, porém, armada até os dentes de estratégias de sedução, não se rendeu por um só momento, até que enfim obteve a vitória. A partir de então sua concha encheu-se de alegria e encanto como nunca fora antes, tornou-se cor de romã e, no fundo do mar, podia-se escutar as canções que ele cantava de si para si mesmo. O gozo daquele amor lhe ensinara várias canções. Ao contrário do que se esperava, entretanto, seu coração não saiu por um minuto da concha: ao invés disso, ela levara para lá o seu amado e lá dentro o degustava como a um bom vinho.

O tempo foi passando e, um dia, ouviu-se uma estrondosa trovoada no céu. Raios cortavam de lado a lado o horizonte. Ela descobria que o amor que acreditava tão belo e a quem entregara sua pérola tão valiosa era falso, como vidro. A concha, de romã, tornou-se acinzentada. As canções cessaram, a alegria sumiu e todo o mar revoltou-se, com ondas gigantes. A dor foi corroendo a casca de sua concha, como a ferrugem faz no ferro mais duro, até que uma brecha surgiu e a água foi entrando aos poucos.

Quando ela viu, a água já tinha invadido tudo. Seu coração era agora um barco à deriva, desprotegido em meio à tormenta, com medo das ondas gigantes. Enquanto elas a jogavam de um lado para o outro, pensava no seu amor perdido, e uma dor lancinante lhe invadiu de tal forma que desmaiou, enquanto o mar a sacudia com violência, ameaçando jogá-la contra as pedras.

Foi dar numa praia ensolarada, um lugar como nos seus sonhos. Ao verem-na aproximar-se, as pessoas se juntaram, retiraram-na da água, fizeram procedimentos de primeiros socorros e ela, enfim, acordou. Ainda sem saber bem o que lhe havia acontecido, olhava ao redor tentando reconhecer aqueles rostos, mas, apesar do carinho com que lhe olhavam e da familiaridade que percebia neles, sabia que eram todos rostos totalmente novos. Foi então que percebeu que estava livre, não havia mais a solidão e nem a concha. Ao invés disso, havia encontrado os amigos com que sonhara e a praia, tão linda, de onde ela não pretendia sair nunca mais.

1 Comments:

At 8:06 AM, Anonymous Anônimo said...

Adorei, não precisa nem falar né ?
Você é boa nisso mesmo hein !!!!
Parabéns e Muitos Beijos.
Angelo.

 

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