Sofia
Acordou atrasada de novo. Maldição! Não sabia o que tanto a pessoa tinha que trabalhar nessa vida. E se tinha mesmo que trabalhar tanto, não tinha outro jeito, por que será que a humanidade decidiu que todo mundo tinha que começar tão cedo? Por que o maldito “horário comercial” não podia começar à tarde, por exemplo? Ou ser dividido em turnos? Mas, não. Todo mundo tinha que acordar ao mesmo tempo e chegar no mesmo horário, que burrice!, e então ficavam todos solidariamente juntos perdendo tempo nos engarrafamentos da vida, enquanto ela se esvaía.
Com esses pensamentos distraindo sua cabeça foi saindo apressada pelo corredor e, logo ao final dele, deparou-se mais uma vez com a gata. Já era a terceira vez naquela semana que a gata aparecia no portão na hora em que ela saía para o trabalho. “O que será que essa gatinha faz aqui todas as manhãs?” Ficava esperando no portão e ia com ela até o ponto de ônibus, depois sumia. Que graça!
As semanas foram avançando no tempo, enquanto a gata avançava nos cuidados. Se antes só se viam pela manhã, agora também se viam à tarde, pois ela também aparecia no horário que a mulher chegava em casa. E a mulher, domesticada por tamanha atenção, e querendo retribuir o carinho que recebia, passou a comprar petiscos felinos, que servia à gatinha ao chegar em casa, ao mesmo tempo em que lhe fazia carinhos, como ela se fosse o seu bicho de pelúcia.
Como o amor não parava de crescer, um ponto chegou em que não era mais possível evitar: foram morar juntas. Agora era um amor oficial, com direito à comida, água, veterinário e, principalmente, a um nome para a gatinha: Sofia. Sofia, por seu turno, retribuía desdobrando-se em atenções com a mulher e procurava estar com ela onde fosse: se estava no quarto, lá estava também a Sofia. Se ia tomar banho, a gata não tomava, mas solidariamente colocava-se à espera da mulher, naquele momento que para ela, pessoalmente, parecia tão difícil.
Com a convivência, veio também a intimidade e ambas começaram a perceber em quantas coisas eram parecidas. Saíam à noite à procura dos gatos: nem sempre voltavam felizes. Algumas vezes a mulher voltava triste, outras, Sofia voltava arranhada, mas sempre se encontravam na volta para casa e dormiam tranqüilas, porque tinham uma à outra. E, principalmente, faziam-se muito bem uma à outra e, por isso mesmo, preservavam com carinho sua amizade.
Porém, apesar das semelhanças, Sofia tinha sua natureza felina e a mulher, apesar de intuir que daquela natureza ainda lhe adviria algum desgosto, a respeitava. Ela sabia que em todas as relações era preciso abrir mão de alguma coisa e com a sua melhor amiga não devia e nem podia ser diferente. O veterinário aconselhou-se a castrar a gatinha, dizendo que, caso não o fizesse, suas artimanhas felinas poderiam levá-la a caçar passarinhos alheios e terminar envenenada, ou debaixo de algum carro. Sob o peso dessas palavras, o coração da mulher sobressaltou-se mas, como não se sentia no direito de mutilar a amiga, ou tolher-lhe de sua selvagem liberdade, deixou que as coisas ficassem como estavam. Esperava viver com Sofia até que a morte as separasse e confiava que a gata não seria tão peralta a ponto de acabar com suas sete vidas antes que a sua própria terminasse.
Sofia envolveu-se em vários desastres: foi atropelada, teve filhotes que nasceram mortos, depois teve outra ninhada que foi morta pelo próprio pai. A mulher acompanhava tudo de perto, chorava, sofria e buscava socorro da forma que fosse possível. Mas, ao passar por aqueles sofrimentos ao lado da amiga, a mulher, apesar de ficar triste, sentia-se amparada por aquele amor tão grande que sentia. Na verdade, estava feliz, pois sabia que já não era mais sozinha. E um amor assim, que vem de onde a gente menos espera, à hora que não se pensava, só poderia ser encarado como uma bênção. Já ouvira falar de muitas pessoas que adotavam bichos de estimação, mas nunca de ninguém que tivesse sido adotada por um, como acontecera com ela. Nunca ninguém a fizera sentir-se tão especial, tão importante, tão amada. E a gatinha já não era mais apenas uma gatinha, mas uma bênção de alegria no meio de sua vida atribulada. Naquela relação a mulher entendeu que não havia barreira suficientemente forte para deter o amor: nem a linguagem, nem a diferença de naturezas, nem qualquer outra coisa que fosse. O amor bastava-se a si mesmo e só pedia de nós que nos entregássemos a ele, sem tentar deter o seu curso.
Mais uma noite chegou e, como de costume, depois de receber a mulher no portão e cumprir com ela o ritual da chegada do trabalho, Sofia saiu para mais uma noite de aventuras. Passou um dia, outro dia, e logo uma semana, sem que ela retornasse. O coração da mulher começou a contrair-se. Chegara enfim o dia de ser cumprida a profecia do veterinário? Mais uma semana: nada. Só restava à mulher pensar que Sofia retornaria, quem sabe estava precisando esfriar a cabeça, quem sabe estava satisfazendo alguma necessidade felina de recolhimento que a mulher não conhecia. Tentava se consolar pensando essas coisas, até que a passagem do tempo trouxe a verdade incontestável e plantou-a diante do seu rosto: ela se fora.
Nos primeiros meses, a mulher ainda teve esperança de que ela voltasse, mas foi em vão. Não somente ela não voltou, como também não deixou nenhum filhote que pudesse aplacar no coração da mulher a dor daquela saudade. O tempo passou, a mulher adaptou-se novamente a viver solitária. E até hoje, quando fica triste e precisa consolar-se, lembra do amor que teve, que não foi imortal, posto que felino, mas que foi eterno enquanto durou.

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