sexta-feira, julho 08, 2005

A Dona da História

Amiga, leal, bonita, dedicada: ela tinha os melhores predicados. Superlativamente apaixonada, ela amava mais que qualquer heroína de romance e, pelo bem do seu amor, ficava mais valente que Hobbin Hood, capaz de qualquer aventura. Era a Julieta que todo Romeu sonhou. Para ela, cada dia vivido ao lado dele era um poema. Sua vida era amá-lo e respeitá-lo, na alegria e na tristeza. Queria ser tudo pra ele, pois ele era a personagem central da sua vida.

Tendo plena consciência que queriam ser felizes para sempre, até que a morte os separasse, resolveram dizer o sim. Passariam a lua de mel em Pernambuco, que era o estado que ela mais amava. No carnaval, a cidade estaria cheia de canto, música, dança e brincadeira, o que era a rima perfeita para a alegria de se casar com a sua outra metade e poder passar com ela o resto de seus dias. Compraram as passagens, reservaram hotel, alugaram carro. Tudo ficou pronto agora só faltava o tempo passar.

Faltando três semanas para o grande dia, veio um golpe: ela, a perfeita heroína, tão dedicada, amiga de todas as horas, companheira inseparável, passou ao papel de vítima. Descobriu, cheia de dor, que não era única. Dividindo com ela o amor dele, havia uma terceira personagem, que, sem que ela desconfiasse, desde longa data estava metida no seu romance. A primeira vontade que lhe veio à cabeça foi fazer o casal de vilões irem parar nas crônicas policiais, mas, depois de alguma ponderação, acabou por arquivar a idéia. Todos que a conheciam temeram pela reação que ela teria, pois uma dor daquele tamanho não tinha sequer tradução. Todos tinham medo que o romance terminasse em tragédia.

Seu mundo caiu: em um momento, ela era uma mulher feliz, afortunada, que havia encontrado o príncipe encantado e estava a um passo de ser feliz até que a morte os separasse; no momento seguinte, era uma mulher traída, enganada pelo lobo mau, sem “sim”, sem vestido de noiva, sem lua de mel no carnaval de Pernambuco. Ele até que tentou remendar, mas ela nem considerou a possibilidade, pois a emenda ficou pior do que o soneto. Aos apelos dele, respondia apenas: “O anel que tu me destes, era vidro e se quebrou. O amor que tu me tinhas era pouco e se acabou.”

Não podendo suportar aquela dor, retirou-se do seu próprio cotidiano. Não foi trabalhar, não foi à igreja, não falou com os amigos, nada lhe ressuscitava. Esperava que o tempo passasse uma borracha sobre o seu coração rasurado, mas o tempo, a passar, apenas trazia para mais perto, a cada dia, sua lua de mel no carnaval de Pernambuco, que havia ficado apenas no rascunho.

De repente, teve uma inspiração. Fazendo uma crítica do seu próprio enredo, viu que tudo estava errado. Afinal, ela era a mocinha da história e estava tendo destino de vilã. Tinha sido honesta, amiga, leal e, em troca, era aquela a moral da história? Percebeu, neste exato momento, que era preciso sair da voz passiva e assumir a autoria. Definitivamente, aquele final tinha que ser mudado e ela estava com o papel e a caneta na mão. Ela era bonita, inteligente e honesta; havia de existir neste mundo coisa melhor pra fazer com seus predicados do que ser amarga, ingênua e infeliz, como estava sendo. Isso nem ao menos rimava, comprometendo a sonoridade de sua vida.

Sob o signo dessa inspiração, fez suas malas e, como tudo já havia sido pago pelo grande vilão da história, embarcou sozinha para sua lua de mel no carnaval de Pernambuco. Passou o carnaval brincando e cantando palavras de alegria. Se divertiu tanto que mal conseguia fechar a boca, tamanha era a força do sorriso que foi impresso no seu rosto. A tristeza que levara para Pernambuco, era agora página virada. No lugar dela, ao voltar, trazia um namorado novo pelo braço, mais bonito e mais inteligente do que o outro, com quem pretendia começar um novo conto, que, sendo escrito a quatro mãos, desta vez deveria ser baseado em fatos reais e não em ficção.