terça-feira, fevereiro 14, 2006

A Antropóloga I - O Indio

Foi pelos cabelos negros dele que ela se apaixonou primeiro. Fios quase escorregadios, azulados, onde o vento brincava, inocente. Ao chegar mais perto dele, porém, descobriu que aqueles cabelos traziam em si toda a história de um povo e, mulher de coração estudioso, avançou sobre o corpo dele numa pesquisa, querendo saber o que cada detalhe tinha a lhe dizer.

No rosto dele estava o oriente: China, Japão, Índia, Coréia... Todos lhe acenavam do sorriso dele, enquanto os olhos amendoados lhe contavam que os primeiros habitantes da América, prevendo um dia o encontro dos dois, haviam empreendido a grandiosa aventura de atravessar geleiras de um lado a outro do mundo.

Sua pele, morena, lhe contava que assim era porque o sol queimara os aventureiros até transformá-los nos bravos índios que habitaram a América do Sul. Seus lábios, enquanto ele a beijava, contavam histórias das festas, das tribos, da caça, do ouro, dos amores livres entre homens e mulheres indígenas que eram vividos em toda sua intensidade, antes da chegada da censura católica pela mão de ferro dos espanhóis.

Mas a língua que ele falava contava a história de um povo que fora dominado, subjugado, arrasado por um outro, que se julgava superior. Mas como um povo que mata e rouba com tanta covardia pode ser superior a quem quer que seja? Quanto mais a guerreiros honrados, inteligentes e bravos? Como estupradores podiam ser superiores a amantes belos, beijados e energizados pela força do deus Sol? Como uma religião que escraviza e legitima assassinatos covardes em nome de um deus que se impõe pela violência pode ser superior àquela que cultua a natureza e festeja a liberdade? Eram estranhos esses valores, mas a pesquisadora do amor acreditava que no corpo do seu índio encontraria todas as respostas, e seguia pesquisando.

Enquanto ela pesquisava, ele brincava no parque de diversões dos anéis dourados dos cabelos dela. Nos seus olhos verde água, ele nadava e se refrescava, refazendo-se do cansaço daquela caminhada tão longa, que se iniciara na era do gelo e terminava agora, com o encontro deles. Seus antepassados iniciaram a caminhada para fugir dos flagelos, da infelicidade, para encontrar uma terra boa onde pudessem viver e ser felizes. Passaram por desventuras durante o caminho, é verdade. Mas foram persistentes, tirando coragem do instinto de sobrevivência. E ele, sem saber e nem buscar, encontrava agora toda a riqueza do mundo, nos braços dourados da mulher que amava.