terça-feira, janeiro 24, 2006

O Canto da Sereia

Foi no dia em que te vi encostado na porta entre o banheiro e o corredor, tão á vontade em minha casa, que me dei conta do abismo em cuja beira me encontrava. Você me olhando, sem camisa, de toalha, parecia ter total consciência de que agora eu e tudo o que me pertence estamos debaixo do teu domínio.

Começou pela minha cabeça que passa agora os dias ocupada em dar novos contornos a tua imagem, novas versões as frases que você me fala, um número ilimitado de vezes, como um disco arranhado, uma maquina fotográfica revoltada contra a realidade da tua ausência. Achei curioso esse efeito, mas sou uma mulher corajosa, não me passou pela cabeça a idéia de fugir. Bom, pensando bem, acho que passou, sim, mas estava disfarçada de alguma outra idéia, talvez eu me lembre vagamente de ter pensado em fazer uma viagem pra bem longe, de forma que não tive como percebê-la.

Mais tarde, foi essa vontade irrefreável de ficar do teu lado. Acordava pensando em você, imaginando seu sorriso de criança feliz do meu lado, dizendo "bom dia, meu amor" e dizendo que quer muito que tudo isso entre nós seja verdade. Na hora do almoço, te imaginava passeando comigo pela rua, de mãos dadas, nós dois trocando palavras e olhares no meio da multidão do centro da cidade. Cada passante com seu interesse vil, seus bingos, seus vícios, seus negócios, suas preocupações, suas amantes. E eu preocupada apenas em sentar pra comer do teu lado. A felicidade torna-se tão dócil quando estamos apaixonados. Deixa-se acariciar como uma lebre, que, apesar de ser bicho fugidio, ao toque de nossas mãos torna-se afável.

Finalmente, no sábado, vi você encostado na parede entre o banheiro e o corredor e tive a revelação de toda a verdade. Eu não vivo mais sem você. Eu quero que tudo se acabe, eu quero que tudo se dane, eu quero que o mundo vire um jardim de rosas pra eu passar de mãos dadas com você no meio dele, ao som da marcha nupcial. Minha vida agora não é mais é só minha, há outro morando nela, fui eu quem deixou entrar.

Um medo me invadiu e eu fiquei caladinha no meio da nossa conversa. Você logo me perguntou "o que foi, que cara é essa?" Ora, que cara é essa pergunto eu! Você chega na minha vida, rouba os sentidos de tudo o que faço, não deixa que haja sabor em nada que há além de ti, como pode me olhar com essa cara de quem não sabe de nada?

Não cheguei a dizer essas palavras pois, no momento que eu ia dizê-las, olhei pros teus olhos e reconheci estampado neles o mesmo terror que eu sinto quando és tu quem fica calado. Digo pra mim mesma que é loucura, é claro que você não sabe o que sinto. É outro pobre coitado, escravo de paixões, como eu. Não, querido, o medo que sinto não é medo de ti. Bem sei da firmeza do teu caráter, sei de seu passado de mocinho de família, homem bom, que honra pai e mãe e não cobiça a mulher do próximo. Sei que não pronunciarias o santo nome do amor em vão. Meu medo, meu amigo, é desse abismo que se estende diante de nossos olhos, debaixo de nossos pés. Meu medo é desse canto de sereia que vem lá do fundo, nos prometendo tantas delícias que não nos resta alternativa que não seja pular e arriscar tudo o que temos. É o velho demônio da esperança, cravando os dentes no coração sonhador do ser humano. Estamos caindo, você bem sabe. Só te peço que me abraces forte enquanto caímos pois o que me apavora é essa vertigem, é a loucura dessa paixão, nada mais.