terça-feira, novembro 22, 2005

O jardim

Sim, eu sempre fui preguiçosa e nunca neguei sê-lo. Minha mãe foi a primeira pessoa a me alertar para esse defeito que tenho. Uma preguiça incrivelmente grande, suficiente para atingir todas as fibras do meu corpo e todos os fios de cada um dos meus pensamentos. Preguiça de andar, preguiça de falar, preguiça de pensar, preguiça de pentear os cabelos e, principalmente, preguiça de existir. Sim, porque para existir no mundo é preciso que a pessoa se manifeste: manifeste seus desejos, seus pensamentos, suas dores... Enfim, pra existir é preciso interferir no mundo em que se vive, do contrário você não existe, apenas é. Ou seja, um trabalhão danado que só de pensar, já me dá preguiça.

O que eu não imaginava é que o jardim que plantei no mês de fevereiro seria o mestre que me guiaria pra fora do meu torpor. Comecei fascinada pela idéia de ter em casa um recanto verdejante, mas não sabia que um jardim dava tanto trabalho e precisava de tantos cuidados. No início eu estava animada, comecei bem, mas o peso da rotina dos cuidados foi me deixando cansada e, aos poucos, fui deixando o jardim abandonado à sua própria sorte. Mas um jardim não é um ser indefeso, e eis aí um fato que me era totalmente desconhecido. Um jardim sabe se defender, sabe dizer que está com sede, com fome e que precisa de cuidados, não se contenta com qualquer maltrato e sabe da importância que tem. O meu me disse isso através de suas folhas ressecadas, de seus galhos que se foram desnudando dia após dia e me deixando tão culpada que não tive como não mudar imediatamente de postura, me sentindo envergonhada pelo meu comportamento displicente. Meu jardim me olhava silenciosamente com uma expressão de censura nas folhas verdes que ainda lhe restavam e aquele olhar gritava no meu ouvido que eu estava sendo ingênua, negligente e que quem gosta de flores tem que estar disposta a cultivá-las. As plantas eram nobres produtoras de oxigênio e eu, apenas mais uma destruidora da natureza.

Morrendo de vergonha pelo meu comportamento ecologicamente delinqüente, peguei uma tesourinha e fui me redimir, tirando as folhas secas uma por uma. Comprei veneno, querosene, vinagre e todo um aparato para assassinar formigas, de forma que o jardim pudesse sentir-se seguro novamente. Retomei a rotina de regá-las e verificar suas folhas todos os dias, monitorando seu estado diligentemente, até que um dia uma pequena florzinha apareceu, sorrindo. Era uma bandeira branca, só que cor de rosa. Primeiro, uma só, bem pequenina, porque o jardim ainda estava desconfiado e testando o meu merecimento. Mas eu estava decidida a me regenerar, de forma que continuei meus cuidados dia após dia, e logo várias flores se abriram pra mim, como o jardim várias vezes repetisse a frase “eu te perdôo”. Assim eu estava perdoada e passava agora de inimiga a amiga da natureza.

Bem, mas depois de florido, a expressão com que ele me olhava mudou. Não, a expressão dele não era de agradecimento, ao contrário do que se pode pensar. Na verdade, ele deixou bem claro que eu não fizera mais do que minha obrigação em cuidar dele como deveria. Mas me olhava com uma expressão de quem diz: “ei, isso não te lembra nada?” ou “será que a sua ingenuidade consegue ser maior do que a sua preguiça?” Sim, os jardins são assim mesmo, muito sinceros, não se pode esperar muita diplomacia da parte deles.

Eu andava pelo corredor, tentando decifrar a mensagem do jardim quando, de relance, me vi no espelho. Não podendo acreditar no que via, voltei e, de um só golpe, entendi a mensagem do jardim, quando vi que as formigas passeavam pelo meu rosto, ervas daninhas me cresciam por sobre a barriga, minhas folhas estavam todas ressecadas...