O que quero e o que não quero
Não, não quero ser o seu ursinho de pelúcia. Não quero ser a boa companhia das noites frias da tua solidão, segurar tua mão pra você dormir tranqüila quando o mundo bater a porta na tua cara, minha cara. Tampouco quero servir-te como ombro amigo onde possas chorar a dor de seres ferida e desprezada por quem não te quer, mulher. Nem quero que me abrigues somente porque não tens abrigo. Não quero te fazer companhia apenas, como se fôssemos um meigo casal de velhinhos. Guardes pra ti mesma as tuas pernas entrevadas e as tuas costas curvadas.
Mas quero que queiras a mim quando todos os outros homens da Terra te quiserem. Quando todos te fizerem, juntos, uma serenata, quero aparecer na janela contigo e acenar pra eles, sorridente. E quando te oferecerem jóias de ouro e prata, quero que me pagues o almoço e te sintas feliz e enternecida a me ver comendo. E em face de convites para andares nos mais modernos e caros automóveis, quero que venhas comigo para uma caminhada sob as estrelas, te sentindo por dentro brilhar de alegria. Quero que me desejes, que espie pelas fechaduras das portas onde eu estiver nu, que deixes bilhetes com propostas obscenas nos bolsos de minhas calças. Quero que te sintas mulher em me lavar as calças e as camisas, e que revistes todas a minhas roupas antes de lavá-las, com o coração temeroso de nelas encontrar um bilhete de uma outra mulher que queira roubar de ti o meu amor.
Mas se me deres tanto amor quanto eu preciso que me dês, minha princesa, jamais acharás este bilhete e nem qualquer mulher neste mundo que me possa desviar de ti os meus olhos. Jamais acharás também outro homem que tanto quanto eu te queira, que tanto quanto eu te ame, que queira ser o teu príncipe encantado e a tua outra metade. E mais lágrimas do que eu, quando por qualquer motivo me faltares, outro homem por ti jamais chorará, nem quererá tanto que tu sejas mãe de seu filho, como eu quero que tu sejas mãe dos meus. Quando me amares tanto quanto desejo ser amado por ti, quero ser o teu urso de pelúcia até ficarmos velhos, tão velhinhos que um ao outro façamos apenas companhia e então hei de beijar-te as pernas entrevadas e acariciar-te as costas já curvadas.

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