quinta-feira, maio 11, 2006

Sementes

Por mais que tentem, nunca me convencerão de que o mundo não é um grande jardim. Hoje mesmo eu plantei uma despretensiosa sementinha à tarde, que me resultou numa colheita de frutos bem no meio da madrugada, quando eu já nem mais me lembrava de tê-la plantado. Na verdade, acho que as pessoas só negam essa verdade porque, enquanto não a admitem, podem culpar o destino ou o mau tempo pelo estado de seu canteiro, o que é bem mais fácil do que arregaçar as mangas e colocar as mãos na terra.

Concordo que a profissão de jardineiro não é lá das mais fáceis. Há o mau tempo, o inverno, as formigas e as pragas em geral. Há também que se estar em constante alerta, observar as plantas com cuidado para adquirir os conhecimentos necessários sobre elas. As sementes, principalmente, têm que ser escolhidas com extremo cuidado, pois o homem sempre colhe aquilo que plantar. Quem passa pela vida sem prestar atenção às sementes que joga na terra, não pode se queixar de estar colhendo espinhos ao invés de rosas.

Se o jardineiro, porém, tiver boa vontade, por mais dura que seja a terra, sempre saberá dela tirar os frutos com que se sustente. Eu mesma às vezes me canso. Lanço sementes por toda a parte, sempre com carinho e esperança de ver surgirem da terra brotos de flores que me enfeitem a vida. A terra, contudo, tem andado mais dura do que nunca e, por mais que eu regue e cuide com diligência, há sementes que não brotam nunca. Desanimada, sento-me diante do não e verto algumas lágrimas, pois um sonho continuamente frustrado é a maneira mais fácil de vestir uma alma de negro.

Passado algum tempo, contudo, vêm os pássaros me lembrar que é das cores vibrantes e do perfume suave que a alegria de viver se alimenta. E as borboletas argumentam que, por mais tenebroso que seja um inverno, invariavelmente ele vai dar numa florida primavera. Então eu me animo novamente e, com minha sacola de sementes, volto a percorrer os caminhos do mundo. Um dia, hei de encontrar uma terra fértil onde veja brotar a semente do meu sonho que, assim como o pé de feijão de João, me leve a conhecer as nuvens e a imensidão do céu.