quinta-feira, maio 25, 2006

A fugitiva

Olga não tinha certeza de nada, só de suas dúvidas. A vida lhe apavorava, as pessoas lhe davam medo, o futuro a deixava aterrorizada e até os desejos que tinha a deixavam insegura. Vivendo num mundo como o seu, aquilo era normal. Manchetes davam notícias ruins todos os dias, as pessoas estavam se transformando em monstros, destruindo o próprio planeta onde moravam sem qualquer sensação de culpa, tudo parecia correr como um rio para um final trágico de que ela, quisesse ou não, estava desde o nascimento condenada a fazer parte.

Os compromissos também eram muitos. Trabalho demais, a casa pra cuidar, o marido a quem dar conta de cada um dos seus passos, a obrigação de estudar para alcançar uma promoção pra ganhar mais dinheiro e gasta-lo com a tv a cabo que não via, com as roupas que comprava, mas não tinha ocasião pra usar. Até a comida estragava na geladeira, tamanho o tempo que passava fora de casa, correndo atrás de algo que ainda não sabia direito o que era.

Desde pequena ela era assim, confusa e insegura. Demorou bastante tempo pra entender como a vida funcionava e, quando descobriu, pareceu-lhe ser já um pouco tarde. Preservava ainda uma alegria que trazia dos tempos de criança, mas até isso estava se esvaindo aos poucos. Sentia-se mais cansada a cada dia, entristecida de ver o rumo que o mundo ia tomando em direção ao desfiladeiro e ao caos.

Um dia, depois de uma das rotineiras discussões com o marido, decidiu sair de carro pra esfriar a cabeça. Pegou a estrada, era domingo, na direção contrária dos carros que voltavam para a cidade de seus finais de semana de churrasco, bebedeira e entorpecimento. Era estranho pra ela como certas pessoas conseguiam viver assim, anestesiadas, sem enxergar um palmo na frente do nariz, mas justamente nesse dia desejou ser um deles, pra entrar num bar e beber toda a sua insegurança, medo e cansaço junto com uma cerveja bem gelada. Pensando bem, até que era uma boa idéia. Sentia-se um pouco embaraçada de entrar sozinha num bar, domingo a noite, mas aquilo não a impediria de dar vazão ao seu desejo. Já era tempo de deixar de ser aquela criança assustada.

Pediu a primeira cerveja e, enquanto ia bebendo, foi acompanhando na tv o programa de domingo à noite. Falava de cirurgias plásticas, das receitas que os médicos davam para quem queria ser jovem pra sempre, depois falaram de adolescentes que haviam assassinado os parentes e de grupos de extermínio que atuavam na baixada fluminense. Aquela sensação de impotência que sempre sentia quando via tais cenas continuava presente, mas agora era menos intensa, como se todo aquele cenário tão pavoroso não se passasse no seu, mas em outro planeta. No final do programa, numa reportagem sobre lugares turísticos, viu um lugar que lhe pareceu tão calmo, tão distante de toda aquela superficialidade e do culto ao dinheiro que lhe cercava diariamente, que desejou, por um momento, estar lá. Era um lugar bem distante, milhares e milhares de quilômetros da metrópole onde vivia seus dias de concreto e poeira.

Ficou pensando no sentido que tinha sua vida. Pensou, pensou, pensou mas não conseguiu achar nada que tivesse muita importância. Nem filhos tinha, pois lhe faltava coragem pra colocar mais seres humanos naquele mundo onde nem ela mesma, se pudesse escolher, gostaria de estar. Era injusto convocar mais um inocente naquele turbilhão em que vivia, mais uma criança enquanto já havia outras tantas privadas de comida e dignidade. Estava presa por uma casa onde só ia pra dormir, um marido que era mais um patrão e um emprego que mais parecia uma família, de tanto que lhe consumia. A cerveja realmente era boa pra amolecer os pensamentos...

Pagou a conta, saiu do bar e entrou no carro. Ficou parada, por um instante, olhando os próprios olhos no espelho. Estaria bêbada? Não sabia, não tinha parâmetro com o qual comparasse a sensação de relaxamento e o desejo de liberdade que sentia. Pensou ainda por um instante, mas logo ligou o carro. Pegou a estrada na direção oposta de casa, no sentido que levava ao local que tinha visto na tevê, e nunca mais foi vista por ninguém que a conhecia até ali.