Festa no Ceu
Depois que ele faleceu, a família toda experimentou sentimentos que jamais imaginara viver. Um pouco de alivio, depois de tanto tempo o vendo morrer aos poucos. Um pouco de estupefação diante da forca da morte, do medo do desconhecido. Muita saudade, muita tristeza, uma enorme sensação de perda e orgulho de alguém que soube tornar-se, ao longo da vida, uma pessoa altamente digna e admirável, apesar dos parcos recursos com que sempre viveu, de todas as dificuldades que teve que superar na vida.
Quando eu soube da noticia, já esperava por ela. Viajei para Paraty ao invés de ir para Ilha Grande, temendo que se algo acontecesse eu não conseguisse ser avisada e deixasse de prestar a ultima homenagem a alguém tão precioso e tão significativo pra mim. Tinha acabado de acertar minha estadia na pousada e, quando voltei ao carro, havia três chamadas perdidas no meu celular. Não precisei ligar de volta pra saber que tudo estava acabado. Sentei num bar, pedi uma cerveja e, acompanhada por um anjo, ou melhor, uma amiga, comecei a me lembrar dos tempos de criança, bem pequena, sua primeira neta. Lembrei das historias que ele me contava, da festa no céu, de como o jacaré ficou com a boca tão grande, do cego e o surdo, da onça, do linguado. Meu avo era o sonho de qualquer criança. Negro, nunca imaginou que, em nascendo-lhe a primeira neta, seria tão branquinha, tão loura, ou teria olhos tão verdes. Um dia, estando eu no colo de alguém, indagou onde e que a pessoa havia achado uma boneca tão grande, sem perceber que falava de mim.
Duas semanas após sua morte, tive um sonho. Via-o em cima de uma arvore alta, frondosa, sentado em um galho que ficava bem de frente para mim. Chamou-me, e eu subi. Me abraçou, beijou e, com carinho e autoridade, me abençoou. Em seguida, desci, e o próximo membro de minha família, que estava todinha reunida embaixo da arvore, também foi beijado, abraçado, abençoado. Um a um, subiram filhos, noras, genros, netos e bisnetos, cada um recebendo dele sua porção.
Acordei trazendo comigo a paz que senti no sonho e ate hoje, quando lembro, posso senti-la novamente. Fui apenas a primeira sonhadora. Minha mãe também sonhou com ele, de camisa colorida e óculos escuros, dançando numa festa animada junto com seus amigos que também já tinham partido. Apesar de achar que meu sonho foi mais bonito, gostei mais de ouvir minha mãe contar o dela. Queria, de todo coração, que ele estivesse mesmo nesta festa. Se algum dia conheci alguém cuja chegada seria comemorada no céu com uma festa, essa pessoa foi ele.

0 Comments:
Postar um comentário
<< Home