segunda-feira, setembro 11, 2006

Aproxime-se com cuidado

Quem passa por mim e vê os meus olhos cintilando não desconfia, mas num beco escuro dentro de mim mora um ogro feio e violento.
Eu quero dominá-lo; ele, me subjugar.
Eu tento escondê-lo; ele tenta aparecer.
Tudo o que eu desejo é a paz; ele só entende de guerras.
Eu me esforço por dizer palavras doces; seu vocabulário é todo feito de ameaças.
Depois de muitas batalhas perdidas, comecei a ganhar do ogro quando descobri o seu ponto fraco. O fraco do ogro é o medo.
Ele tem medo de ficar sozinho.
Ele tem medo do escuro.
Ele quer ser amado apesar de ser horrível.
Ele quer palavras doces e carinho, quer dormir feito bebê aninhado em braços amorosos.
Desde que fiz esta descoberta, acordo meu ogro de manhã com um beijinho. À mesa do café, digo-lhe palavras amenas. Sorrio pra ele toda vez que o vejo e, antes de dormir, conto-lhe uma história e canto canções de ninar. Desde que lhe apazigüei os temores, o ogro nunca mais me atacou.
Aos que vêem meus olhos cintilando e se animam, pensando que moro sozinha neste corpo, eu aviso: Cuidado! Dentro de mim mora um ogro! Entre cantando canções de ninar, entre com braços amorosos pra me embalar, entre sem fazer barulho e nem ameaças. Cuidado com o ogro, ele pode acordar...