Áries, Câncer, Capricórnio
Antes que vocês, sem nem mesmo conhecê-la, queiram julgá-la, permitam-me defendê-la. Sinto-me no direito de, neste caso, estabelecer antes a defesa do que a acusação, pois, se eu, o narrador, a conheço antes de vocês, é justo que também emita minha opinião antes que o façais.
Ela não era um escândalo de beleza, é verdade, mas o que havia nela era algo ainda maior do que isso. Um olhar cheio de simpatia e firmeza, uma atitude sempre tão despojada diante da vida e dos fatos, uma alegria que raramente se via fora do lugar. Era uma mulher única, uma singular ocorrência.
Era casada com o homem que era tudo com que sempre sonhou. Inteligente, vivaz, cavalheiro, bem sucedido. Desde o início, quando o conheceu na faculdade, viu nele o homem que estava à sua altura e, pouco depois da formatura dela, casaram-se.
Acontece que essa vida passa e com o passar da vida, pareceu a ela que também passava o amor do marido. Capricorniano, sua dedicação à família era expressa pelo conforto material que se esforçava por lhes proporcionar. Trabalhando para manter o mais alto padrão de vida que pudesse, passava muito mais tempo longe do que perto, e essa distância fazia com que a Ariana, tão fogosa e carente de afeto, se sentisse vazia. Ela reclamava, queria o marido por perto, queria passar mais tempo junto dele, perguntava se ele estava deixando de amá-la, mas ele lhe assegurava que tudo ia bem, que aquilo não passava de impressão dela, que o que lhe mantinha longe era apenas o desejo de fazer dela uma rainha, como ela merecia. A filha de Marte, por muito amá-lo, ia, a contragosto, levando o casamento adiante. Acumulava jóias e presentes que, para ele, significavam amor e, pra ela, eram substitutos que não estavam à altura da atenção que queria receber.
Vejam, amigos, que na vida há, muitas vezes, situações como essa, em que cada um ama de um jeito, amando o melhor que pode mas sem amar como deveria. No caso deste casal, entretanto, o amor era muito maior que a diferença e, nos momentos em que estavam juntos, todo o descompasso dava lugar a momentos felizes e calorosos, que davam a ela e ele motivos para seguirem em frente.
Numa sexta-feira, estava o Capricorniano em seu escritório elegantemente decorado, às duas da tarde, pensando no final de semana que se aproximava e em sua Ariana, que lhe esperava em casa com um magnífico jantar, como só ela sabia preparar.
Este era um homem ligado ao mundo concreto e à parte dura da vida, que, desde muito jovem, aprendeu que nada se conquista se não como muita luta e esforço. Na adolescência inventava comércios diversos com que ganhar o dinheiro para sustentar a família após a morte do pai, abrindo mão de prazeres, diversões e toda a sorte de alegria que a juventude oferece, em nome de obter sucesso e ser alguém na vida.
Um dia, entrando num corredor da faculdade onde estudava, ouviu gargalhadas soluçantes vindo de um canto. Neste canto, viu-se diante de uma mulher tão graciosa que mais parecia uma nuvem cor de rosa. Sentiu a alegria radiante emanando dela e chegando ao seu coração escuro feito uma caverna, cheio de segredos guardados e emoções reprimidas. Sua alma se iluminou. Sentiu pela primeira vez alegria e prazer simplesmente por estar vivo, uma alegria sem preço, que o dinheiro nunca poderia comprar. O que mais lhe poderia acontecer, que não apaixonar-se perdidamente por ela?
Agora, voltando ao escritório às duas e dez da tarde (porque dez minutos ele passou em divagações românticas), recebeu a visita de um homem desconhecido, um Canceriano, que sentando-se diante dele, lhe disse, com todas as letras, que amava sua mulher e pretendia tomá-la para si. A confusão que se fez na mente do homem foi tal que ele parou de ouvir logo após essa primeira revelação. Ao invés de escutar, ele reparava na paixão estampada no rosto diante dele, enquanto o outro falava. Fosse lá o que estivesse acontecendo ali, era inegável que o homem estava de fato apaixonado, pois ninguém, em sã consciência, teria coragem de afrontar um marido como o Canceriano fazia. Quando voltou a si, deu-se conta do absurdo daquela situação e expulsou o homem de sua sala, sem querer ouvir mais nenhuma palavra daquela estória sórdida e dolorosa.
Você acreditou na estória do Canceriano? Pois penso que talvez S. Thomé seja o santo protetor dos Capricornianos, pois o nosso, assim como o santo, não acreditaria assim tão fácil naquele disparate. Não obstante a incredulidade, entrou imediatamente a julgar se o caso seria verdadeiro, se havia fatos que pudessem comprovar tal estória. Nesse momento, sentiu pena de si mesmo, pois era óbvio que oportunidade, tempo livre e falta de motivos não seriam obstáculo para uma traição, no caso dela. Ele trabalhava demais, era o que ela sempre dizia, às vezes com lágrimas nos olhos. Lágrimas que, ao primeiro roçar desta constatação em seu pensamento, inundaram também os olhos dele.
Começou, então, a imaginar os delírios sensuais de sua voluntariosa Ariana com aquele aguado Canceriano. Teria ela gemido de prazer entre os lençóis, tão submissa diante do corpo daquele homem, como fazia com ele? Teria ele sido o destinatário final de todo o amor que ela queria dar ao marido, sem conseguir? Seria aquele seu vulcão particular capaz de jorrar sua lava para destruir cidades que estavam fora de sua vista? Ao pensar nisso, lembrava da paixão desfraldada como uma bandeira no rosto do outro. Se fosse julgar pela paixão que viu ali, facilmente acreditaria no que o homem lhe dissera, pois sabia, por experiência própria, o que uma noite com sua mulher era capaz de fazer ao coração de um homem.
Apesar do ódio mortal que essas reflexões lhe causavam, o Capricórnio resolveu que entregaria demasiado fácil a mulher ao outro se fosse logo acreditando no que ele lhe contava. Era mais prudente falar com ela primeiro, saber do que se tratava e, a partir daí tomar uma decisão. Entrou no carro e foi pelo caminho imaginando uma possível conversa com a esposa. Como diria isso a ela? Como entraria nesse assunto? Se ela fosse inocente, podia até imaginar sua cara irada, vermelha, querendo saber quem era o desgraçado que fizera aquela intriga entre eles. E isso ele não saberia responder, pois sequer perguntara o nome do homem. Apenas o expulsara do escritório, sem conseguir agüentar nem mais um minuto daquela conversa. Mas então teve um sobressalto: e se ela fosse culpada? Se de fato tivesse um caso com aquele homem? Pior do que isso, se tivesse um caso com o homem e também quisesse deixá-lo e ir embora com o outro?
Não, definitivamente não deixaria que isso acontecesse. Se tinha certeza de alguma coisa, era de que aquela mulher o amava. A lealdade e amizade dela foram o que tornou possível pra ele enfrentar o mundo que lhe parecia tão inóspito e todas as dificuldades que ele colocava em seu caminho. Sua imensa alegria de viver e seu otimismo faziam dela o paraíso particular para aquele homem tão ligado à realidade, à dureza da vida, ao trabalho e ao mundo concreto. Era tão meiga, tão carinhosa, tão dedicada a ele e ao filho que parecia quase impossível que aquilo pudesse ser verdade. Veja aí, leitor jurado, que até o marido concordava comigo quando a defendi antes de qualquer coisa. Leve em consideração o depoimento dele antes de julgar a estória que adiante termino de te contar.
Resolveu, antes de ir pra casa, parar para refrescar os pensamentos, tão afogueados a essa altura, com alguns copos de cerveja. Sentou-se, chamou o garçom e, quando ia fazer seu pedido, viu um amigo que há tempos não via, um Geminiano que havia estudado com ele a mulher na faculdade. Abraçaram-se, trocaram novidades e, um pouco a contragosto, convidou o Geminiano a sentar-se para uma conversa informal.
Acontece que o Geminiano, e disso nem vocês e nem o Capricorniano sabiam, teve um grande desgosto quando o Capricorniano casou-se com a Ariana. Não vá pensar mal da menina, ela não foi amante e nem sequer jamais deu um beijo naquele homem, mas talvez tenha sido justamente isso o que despertou tanto desejo no Geminiano. Para aumentar a tristeza dele, depois de casada ela revelou-se uma mulher ainda mais extraordinária do que lhe parecia. Todos os amigos em comum comentavam que sorte tinha o Capricorniano que, além de tão bem sucedido nos negócios, tinha-se casado com aquela mulher tão especial. Estes comentários, que nunca haviam chegado ao ouvido do marido, chegaram nesse momento, junto com a confissão de paixão do Geminiano pela Ariana e o atestado de que ela era deveras uma mulher honrada. Extremamente reconfortantes e aconchegantes, aquelas palavras chegavam como música suave àqueles ouvidos que mais cedo, naquele mesmo dia, foram tão agredidos pelas palavras do Canceriano.
Com algumas cervejas já na cabeça, a ira anestesiada pelas palavras cordiais do Geminiano a respeito dela, o Capricorniano resolveu voltar para sua Ariana, que a essa hora já esperava impaciente. Quando o carro parou na garagem, ela logo veio encontrá-lo. Estava com olhos vermelhos e indignados. O que é que ele estava fazendo na rua até àquela hora? E aquele cheiro de cerveja, onde é que ele havia bebido? O jantar estava lá, já frio, esquecido por ele! Pensava que ela era alguma idiota? Já passava tanto tempo fora de casa, cara enfiada no trabalho, agora ia passar a dar esses passeios após o trabalho? Se fosse, era melhor separarem-se logo. Não agüentava mais ser casada com um homem que passava tanto tempo longe dela, sentia saudades, sentia sua falta. Noutro dia até perguntaram a ela se estavam separados, tanto tempo que não lhes viam juntos. Ela tudo tolerava, porque o amava e sabia de sua dedicação. Saídas para cerveja sem ela, isso sim é que não ia tolerar. Se o tempo que tinha livre não era todo dela, então que ficasse com tudo logo pra si, pois não agüentava mais ficar sozinha.
Aquela torrente de acusações e ameaças, ao invés aborrecê-lo, o deixou feliz. Então ali estava mais uma prova do quanto ela se importava com ele. Tempo livre para cerveja? Não, ele queria passá-lo todo com ela! Se pudesse, nunca mais trabalharia, só pra não ter que ficar um minuto distante dela e seu cheirinho doce e nunca mais ter que receber intrusos em seu escritório, que queriam casar-se com ela às duas da tarde de uma sexta-feira. Contou-lhe o que se passara, que foi só o encontro com o Geminiano, aquele Geminiano, lembra? Foi só isso que atrasou sua chegada. Ah, sim, ela lembrava do Geminiano e de todas as propostas românticas que ele lhe fez durante o tempo em que conviveram.
Passada a tempestade, com o homem ainda sob o efeito do álcool, sob os lençóis foi refeita a harmonia do casal. Se durante o dia, comandando a casa e a vida dos dois com tanta dedicação, ela o fazia ter certeza de que o amava, à noite, entregando-se com ânsia e fulgor aos carinhos dele, ela praticamente inscrevia essa certeza a fogo em seu coração. E assim, a conjunção entre os poderes do álcool, as palavras do homem de Mercúrio e o fogo da mulher de Marte extirpou da mente do Capricorniano, pelo menos enquanto durou aquela noite, a visão dolorosa da paixão nos olhos daquele Canceriano invejoso e sem lar.
Chegada a manhã, acordou com o cheiro gostoso que o café exalava, na bandeja ao lado da cama, trazido naquele momento pela empregada. Ao lado da refeição, um bilhetinho da mulher dizia que havia ido ao mercado, e preferira deixá-lo descansando a acordá-lo tão cedo. Se ele fosse um escorpiano, pegaria imediatamente o carro e sairia a segui-la, espreitando-a pela rua em busca de alguma comprovação daqueles amores clandestinos da qual ela era acusada. Nesse caso, ele teria suas suspeitas frustradas, ao constatar simplesmente ao mercado, comprar as iguarias que mais agradavam ao marido para lhe preparar um almoço digno de rei. Nosso Capricorniano, entretanto, nem pensou nessa possibilidade. Ao contrário, pensou que talvez tudo não tivesse passado de um mal entendido. Aquele homem devia ter entrado no escritório do marido errado. Sua doce esposa seria incapaz de tamanha sujeira.
Ao voltar pra casa, e ao longo daquele final de semana, ela era só sorrisos. Passaram dois dias fantásticos, felizes e risonhos. Ao cair da noite de domingo, morrendo o último raio de sol, morreu também o último fio de dúvida que pairava sobre o coração dolorido do marido. Tinha certeza, ela o amava e era tão digna que chegava a ser pecado imaginar que tal atitude pudesse partir dela. Só mesmo um engano explicaria o que se passara naquela tarde hostil.
Chegada a segunda-feira, chegava a hora de voltar a rotina que tanto o afastava da esposa e atrapalhava o seu casamento. Era preciso dar um fim àquela situação e, para mostrar que pretendia mudar de atitudes, resolveu levar, naquela manhã, o filho à escola. Lá chegando, depois de despedir-se do pequeno Leonino, já saindo, vê, atrás de seu carro, atravessando a rua, o tal Canceriano que estivera em seu escritório. Era ele mesmo, com aquela cara invejosa, ordinária e apaixonada. Parou o carro e esperou. O pretenso amante entrou no colégio. Entrou no colégio? Mas o que ele fazia ali?
O homem viu-se, contra sua vontade, obrigado a reconsiderar a suspeita levantada contra a esposa, quando soube que se tratava de um dos professores que dava aula no colégio do menino. Seria mesmo um engano? Seria sua esposa amante de um dos professores de seu filho? Não sabia dizer se a dúvida instalada em coração era melhor ou pior do uma certeza. E o Capricorniano, depois de refletir nos prós e contras, pesando com cuidado todas as implicações, encontrou uma solução prática e eficaz contra dúvida e a certeza.
No dia do sepultamento, compareceu o pequeno Leonino, acompanhado do pai e da mãe, ao enterro do professor, que fora morto a facadas com golpes tão violentos que o caixão teve que permanecer fechado durante o velório. Seguindo o cortejo, o Capricorniano ia pensando que, se a estória fosse verdadeira, se a esposa o tivesse de fato traído, a culpa era toda dele mesmo que, afinal, descuidara do casamento mais do que deveria. Ela, ainda assim, mostrara-se sempre triste pela ausência do marido em casa. Ainda que tivesse tido um caso, claro estava que o fizera quase contra sua vontade. De toda forma, era sempre mais prudente não facilitar as coisas e, com o professorzinho debaixo de sete palmos, não havia nenhuma possibilidade de ela abandoná-lo para ir ficar com ele.
Já o Canceriano era, de todo modo, culpado, pois perturbava a paz de uma família. Se não a sua, a de outro homem, o que era quase a mesma coisa. Se tinha coragem de andar por aí exibindo no rosto tanta paixão clandestina, afrontando maridos, era justo também que sofresse as conseqüências de sua ousadia. Deus, que era justo, haveria de saber perdoar a ele, um Capricorniano honrado, respeitador da esposa, zeloso de sua família, que, na verdade, só estava fazendo cumprir o que o próprio Deus determinava: não cobiçarás a mulher do próximo.
Ela não era um escândalo de beleza, é verdade, mas o que havia nela era algo ainda maior do que isso. Um olhar cheio de simpatia e firmeza, uma atitude sempre tão despojada diante da vida e dos fatos, uma alegria que raramente se via fora do lugar. Era uma mulher única, uma singular ocorrência.
Era casada com o homem que era tudo com que sempre sonhou. Inteligente, vivaz, cavalheiro, bem sucedido. Desde o início, quando o conheceu na faculdade, viu nele o homem que estava à sua altura e, pouco depois da formatura dela, casaram-se.
Acontece que essa vida passa e com o passar da vida, pareceu a ela que também passava o amor do marido. Capricorniano, sua dedicação à família era expressa pelo conforto material que se esforçava por lhes proporcionar. Trabalhando para manter o mais alto padrão de vida que pudesse, passava muito mais tempo longe do que perto, e essa distância fazia com que a Ariana, tão fogosa e carente de afeto, se sentisse vazia. Ela reclamava, queria o marido por perto, queria passar mais tempo junto dele, perguntava se ele estava deixando de amá-la, mas ele lhe assegurava que tudo ia bem, que aquilo não passava de impressão dela, que o que lhe mantinha longe era apenas o desejo de fazer dela uma rainha, como ela merecia. A filha de Marte, por muito amá-lo, ia, a contragosto, levando o casamento adiante. Acumulava jóias e presentes que, para ele, significavam amor e, pra ela, eram substitutos que não estavam à altura da atenção que queria receber.
Vejam, amigos, que na vida há, muitas vezes, situações como essa, em que cada um ama de um jeito, amando o melhor que pode mas sem amar como deveria. No caso deste casal, entretanto, o amor era muito maior que a diferença e, nos momentos em que estavam juntos, todo o descompasso dava lugar a momentos felizes e calorosos, que davam a ela e ele motivos para seguirem em frente.
Numa sexta-feira, estava o Capricorniano em seu escritório elegantemente decorado, às duas da tarde, pensando no final de semana que se aproximava e em sua Ariana, que lhe esperava em casa com um magnífico jantar, como só ela sabia preparar.
Este era um homem ligado ao mundo concreto e à parte dura da vida, que, desde muito jovem, aprendeu que nada se conquista se não como muita luta e esforço. Na adolescência inventava comércios diversos com que ganhar o dinheiro para sustentar a família após a morte do pai, abrindo mão de prazeres, diversões e toda a sorte de alegria que a juventude oferece, em nome de obter sucesso e ser alguém na vida.
Um dia, entrando num corredor da faculdade onde estudava, ouviu gargalhadas soluçantes vindo de um canto. Neste canto, viu-se diante de uma mulher tão graciosa que mais parecia uma nuvem cor de rosa. Sentiu a alegria radiante emanando dela e chegando ao seu coração escuro feito uma caverna, cheio de segredos guardados e emoções reprimidas. Sua alma se iluminou. Sentiu pela primeira vez alegria e prazer simplesmente por estar vivo, uma alegria sem preço, que o dinheiro nunca poderia comprar. O que mais lhe poderia acontecer, que não apaixonar-se perdidamente por ela?
Agora, voltando ao escritório às duas e dez da tarde (porque dez minutos ele passou em divagações românticas), recebeu a visita de um homem desconhecido, um Canceriano, que sentando-se diante dele, lhe disse, com todas as letras, que amava sua mulher e pretendia tomá-la para si. A confusão que se fez na mente do homem foi tal que ele parou de ouvir logo após essa primeira revelação. Ao invés de escutar, ele reparava na paixão estampada no rosto diante dele, enquanto o outro falava. Fosse lá o que estivesse acontecendo ali, era inegável que o homem estava de fato apaixonado, pois ninguém, em sã consciência, teria coragem de afrontar um marido como o Canceriano fazia. Quando voltou a si, deu-se conta do absurdo daquela situação e expulsou o homem de sua sala, sem querer ouvir mais nenhuma palavra daquela estória sórdida e dolorosa.
Você acreditou na estória do Canceriano? Pois penso que talvez S. Thomé seja o santo protetor dos Capricornianos, pois o nosso, assim como o santo, não acreditaria assim tão fácil naquele disparate. Não obstante a incredulidade, entrou imediatamente a julgar se o caso seria verdadeiro, se havia fatos que pudessem comprovar tal estória. Nesse momento, sentiu pena de si mesmo, pois era óbvio que oportunidade, tempo livre e falta de motivos não seriam obstáculo para uma traição, no caso dela. Ele trabalhava demais, era o que ela sempre dizia, às vezes com lágrimas nos olhos. Lágrimas que, ao primeiro roçar desta constatação em seu pensamento, inundaram também os olhos dele.
Começou, então, a imaginar os delírios sensuais de sua voluntariosa Ariana com aquele aguado Canceriano. Teria ela gemido de prazer entre os lençóis, tão submissa diante do corpo daquele homem, como fazia com ele? Teria ele sido o destinatário final de todo o amor que ela queria dar ao marido, sem conseguir? Seria aquele seu vulcão particular capaz de jorrar sua lava para destruir cidades que estavam fora de sua vista? Ao pensar nisso, lembrava da paixão desfraldada como uma bandeira no rosto do outro. Se fosse julgar pela paixão que viu ali, facilmente acreditaria no que o homem lhe dissera, pois sabia, por experiência própria, o que uma noite com sua mulher era capaz de fazer ao coração de um homem.
Apesar do ódio mortal que essas reflexões lhe causavam, o Capricórnio resolveu que entregaria demasiado fácil a mulher ao outro se fosse logo acreditando no que ele lhe contava. Era mais prudente falar com ela primeiro, saber do que se tratava e, a partir daí tomar uma decisão. Entrou no carro e foi pelo caminho imaginando uma possível conversa com a esposa. Como diria isso a ela? Como entraria nesse assunto? Se ela fosse inocente, podia até imaginar sua cara irada, vermelha, querendo saber quem era o desgraçado que fizera aquela intriga entre eles. E isso ele não saberia responder, pois sequer perguntara o nome do homem. Apenas o expulsara do escritório, sem conseguir agüentar nem mais um minuto daquela conversa. Mas então teve um sobressalto: e se ela fosse culpada? Se de fato tivesse um caso com aquele homem? Pior do que isso, se tivesse um caso com o homem e também quisesse deixá-lo e ir embora com o outro?
Não, definitivamente não deixaria que isso acontecesse. Se tinha certeza de alguma coisa, era de que aquela mulher o amava. A lealdade e amizade dela foram o que tornou possível pra ele enfrentar o mundo que lhe parecia tão inóspito e todas as dificuldades que ele colocava em seu caminho. Sua imensa alegria de viver e seu otimismo faziam dela o paraíso particular para aquele homem tão ligado à realidade, à dureza da vida, ao trabalho e ao mundo concreto. Era tão meiga, tão carinhosa, tão dedicada a ele e ao filho que parecia quase impossível que aquilo pudesse ser verdade. Veja aí, leitor jurado, que até o marido concordava comigo quando a defendi antes de qualquer coisa. Leve em consideração o depoimento dele antes de julgar a estória que adiante termino de te contar.
Resolveu, antes de ir pra casa, parar para refrescar os pensamentos, tão afogueados a essa altura, com alguns copos de cerveja. Sentou-se, chamou o garçom e, quando ia fazer seu pedido, viu um amigo que há tempos não via, um Geminiano que havia estudado com ele a mulher na faculdade. Abraçaram-se, trocaram novidades e, um pouco a contragosto, convidou o Geminiano a sentar-se para uma conversa informal.
Acontece que o Geminiano, e disso nem vocês e nem o Capricorniano sabiam, teve um grande desgosto quando o Capricorniano casou-se com a Ariana. Não vá pensar mal da menina, ela não foi amante e nem sequer jamais deu um beijo naquele homem, mas talvez tenha sido justamente isso o que despertou tanto desejo no Geminiano. Para aumentar a tristeza dele, depois de casada ela revelou-se uma mulher ainda mais extraordinária do que lhe parecia. Todos os amigos em comum comentavam que sorte tinha o Capricorniano que, além de tão bem sucedido nos negócios, tinha-se casado com aquela mulher tão especial. Estes comentários, que nunca haviam chegado ao ouvido do marido, chegaram nesse momento, junto com a confissão de paixão do Geminiano pela Ariana e o atestado de que ela era deveras uma mulher honrada. Extremamente reconfortantes e aconchegantes, aquelas palavras chegavam como música suave àqueles ouvidos que mais cedo, naquele mesmo dia, foram tão agredidos pelas palavras do Canceriano.
Com algumas cervejas já na cabeça, a ira anestesiada pelas palavras cordiais do Geminiano a respeito dela, o Capricorniano resolveu voltar para sua Ariana, que a essa hora já esperava impaciente. Quando o carro parou na garagem, ela logo veio encontrá-lo. Estava com olhos vermelhos e indignados. O que é que ele estava fazendo na rua até àquela hora? E aquele cheiro de cerveja, onde é que ele havia bebido? O jantar estava lá, já frio, esquecido por ele! Pensava que ela era alguma idiota? Já passava tanto tempo fora de casa, cara enfiada no trabalho, agora ia passar a dar esses passeios após o trabalho? Se fosse, era melhor separarem-se logo. Não agüentava mais ser casada com um homem que passava tanto tempo longe dela, sentia saudades, sentia sua falta. Noutro dia até perguntaram a ela se estavam separados, tanto tempo que não lhes viam juntos. Ela tudo tolerava, porque o amava e sabia de sua dedicação. Saídas para cerveja sem ela, isso sim é que não ia tolerar. Se o tempo que tinha livre não era todo dela, então que ficasse com tudo logo pra si, pois não agüentava mais ficar sozinha.
Aquela torrente de acusações e ameaças, ao invés aborrecê-lo, o deixou feliz. Então ali estava mais uma prova do quanto ela se importava com ele. Tempo livre para cerveja? Não, ele queria passá-lo todo com ela! Se pudesse, nunca mais trabalharia, só pra não ter que ficar um minuto distante dela e seu cheirinho doce e nunca mais ter que receber intrusos em seu escritório, que queriam casar-se com ela às duas da tarde de uma sexta-feira. Contou-lhe o que se passara, que foi só o encontro com o Geminiano, aquele Geminiano, lembra? Foi só isso que atrasou sua chegada. Ah, sim, ela lembrava do Geminiano e de todas as propostas românticas que ele lhe fez durante o tempo em que conviveram.
Passada a tempestade, com o homem ainda sob o efeito do álcool, sob os lençóis foi refeita a harmonia do casal. Se durante o dia, comandando a casa e a vida dos dois com tanta dedicação, ela o fazia ter certeza de que o amava, à noite, entregando-se com ânsia e fulgor aos carinhos dele, ela praticamente inscrevia essa certeza a fogo em seu coração. E assim, a conjunção entre os poderes do álcool, as palavras do homem de Mercúrio e o fogo da mulher de Marte extirpou da mente do Capricorniano, pelo menos enquanto durou aquela noite, a visão dolorosa da paixão nos olhos daquele Canceriano invejoso e sem lar.
Chegada a manhã, acordou com o cheiro gostoso que o café exalava, na bandeja ao lado da cama, trazido naquele momento pela empregada. Ao lado da refeição, um bilhetinho da mulher dizia que havia ido ao mercado, e preferira deixá-lo descansando a acordá-lo tão cedo. Se ele fosse um escorpiano, pegaria imediatamente o carro e sairia a segui-la, espreitando-a pela rua em busca de alguma comprovação daqueles amores clandestinos da qual ela era acusada. Nesse caso, ele teria suas suspeitas frustradas, ao constatar simplesmente ao mercado, comprar as iguarias que mais agradavam ao marido para lhe preparar um almoço digno de rei. Nosso Capricorniano, entretanto, nem pensou nessa possibilidade. Ao contrário, pensou que talvez tudo não tivesse passado de um mal entendido. Aquele homem devia ter entrado no escritório do marido errado. Sua doce esposa seria incapaz de tamanha sujeira.
Ao voltar pra casa, e ao longo daquele final de semana, ela era só sorrisos. Passaram dois dias fantásticos, felizes e risonhos. Ao cair da noite de domingo, morrendo o último raio de sol, morreu também o último fio de dúvida que pairava sobre o coração dolorido do marido. Tinha certeza, ela o amava e era tão digna que chegava a ser pecado imaginar que tal atitude pudesse partir dela. Só mesmo um engano explicaria o que se passara naquela tarde hostil.
Chegada a segunda-feira, chegava a hora de voltar a rotina que tanto o afastava da esposa e atrapalhava o seu casamento. Era preciso dar um fim àquela situação e, para mostrar que pretendia mudar de atitudes, resolveu levar, naquela manhã, o filho à escola. Lá chegando, depois de despedir-se do pequeno Leonino, já saindo, vê, atrás de seu carro, atravessando a rua, o tal Canceriano que estivera em seu escritório. Era ele mesmo, com aquela cara invejosa, ordinária e apaixonada. Parou o carro e esperou. O pretenso amante entrou no colégio. Entrou no colégio? Mas o que ele fazia ali?
O homem viu-se, contra sua vontade, obrigado a reconsiderar a suspeita levantada contra a esposa, quando soube que se tratava de um dos professores que dava aula no colégio do menino. Seria mesmo um engano? Seria sua esposa amante de um dos professores de seu filho? Não sabia dizer se a dúvida instalada em coração era melhor ou pior do uma certeza. E o Capricorniano, depois de refletir nos prós e contras, pesando com cuidado todas as implicações, encontrou uma solução prática e eficaz contra dúvida e a certeza.
No dia do sepultamento, compareceu o pequeno Leonino, acompanhado do pai e da mãe, ao enterro do professor, que fora morto a facadas com golpes tão violentos que o caixão teve que permanecer fechado durante o velório. Seguindo o cortejo, o Capricorniano ia pensando que, se a estória fosse verdadeira, se a esposa o tivesse de fato traído, a culpa era toda dele mesmo que, afinal, descuidara do casamento mais do que deveria. Ela, ainda assim, mostrara-se sempre triste pela ausência do marido em casa. Ainda que tivesse tido um caso, claro estava que o fizera quase contra sua vontade. De toda forma, era sempre mais prudente não facilitar as coisas e, com o professorzinho debaixo de sete palmos, não havia nenhuma possibilidade de ela abandoná-lo para ir ficar com ele.
Já o Canceriano era, de todo modo, culpado, pois perturbava a paz de uma família. Se não a sua, a de outro homem, o que era quase a mesma coisa. Se tinha coragem de andar por aí exibindo no rosto tanta paixão clandestina, afrontando maridos, era justo também que sofresse as conseqüências de sua ousadia. Deus, que era justo, haveria de saber perdoar a ele, um Capricorniano honrado, respeitador da esposa, zeloso de sua família, que, na verdade, só estava fazendo cumprir o que o próprio Deus determinava: não cobiçarás a mulher do próximo.

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