domingo, abril 07, 2024

A Floresta

No meio de uma de minhas noites cansadas, inesperadamente dei com aqueles dois olhos verdejando pra mim. Eram lindos, muito verdes e cintilavam Me faziam tantas promessas que meu coração se enchia de alegria toda vez que eu os olhava.  

 

Essas visitas se tornaram um hábito e eu caminhava feliz pelo jardim daquele olhar sempre que a vida me dava chance. Não demorei a perceber que havia mais pra se conhecer. Não muito além dali havia uma floresta densa, com árvores lindas, frondosas e frutos que eu sentia que teriam gosto de céu em minha boca.

 

Senti uma vontade quase irresistível de me embrenhar naquele mundo, a força da minha natureza masculina me impelia à ação. Mas outra parte dentro de mim teve muito receio dos perigos que podiam estar à espera na floresta e tentava segurar essa força de toda maneira que podia. Foi assim que a beleza dela me dividiu em dois homens que passaram a brigar entre si: um querendo entrar, o outro querendo fugir.

 

Achei melhor pensar com calma, me iludindo com a ideia de que o tempo estava do meu lado. A parte de mim que queria entrar no jardim corria para os olhos dela toda vez que os via e tentava do seu jeito chegar o mais perto da floresta, enquanto a outra usava a força do medo pra impedi-la e me fazer ficar o mais longe possível daquele verde.

 

Então um dia, quando a vi, busquei seu olhar, como de costume, mas não fui correspondido. Pela primeira vez, o portal não se abriu pra mim. Fiquei de fora tentando encontrar uma forma de entrar, mas não tinha. Chamei, gritei, ela não me atendeu. Eu ainda podia ver o jardim e como lindamente cintilava e o homem dentro de mim que quis o tempo todo entrar na floresta mal conseguia respirar. Tinha sido derrotado e sentia-se devastado, mas era impotente agora.

 

Na próxima vez que a vi, tentei novamente entrar, mas também não consegui. E enquanto admirava de fora aquele verde, os dois dentro de mim choraram juntos vendo outro homem sentado no jardim, com um fruto na mão, comendo extasiado.