domingo, dezembro 24, 2023

Plutão na casa 8

 "Depois de muito tempo o senhor daqueles servos voltou e acertou contas com eles.” 

Mat 25:19

 

 A minha vida foi sempre assim, só chorando as mágoas que não tem fim. Lá pela meia idade, meus olhos cansados de lamento já tinham deixado de esperar por dias felizes. Minhas costas acostumadas ao chicote já estavam entregues e sem forças, sempre na expectativa do próximo golpe.

Meu coração, que na juventude era sedento de alegria, agora jazia inerte com os olhos perdidos e cansados e pensava com carinho no dia em que a morte finalmente visse me buscar. 

Só minhas mãos, embora igualmente fatigadas, ainda seguiam firme trabalhando porque sempre acreditaram que o trabalho é a única força que nunca falha.   

Um dia, sem eu esperar, Plutão entrou na minha casa 8. A princípio fiquei com medo porque sabia que ele era o rei do inferno. Mas depois lembrei da minha vasta experiência no assunto e me tranquilizei. 

No dia seguinte, quando acordei e abri a porta, vi que todas as plantas que eu tentara cultivar sem sucesso até aquele momento frutificaram em conjunto de uma só vez, como uma orquestra linda, transformando os meus esforços do passado em um tesouro de sabores, perfumes e cores para deleite da minha alma cansada e deserta. 

Meus olhos começaram a enxergar coisas que estavam bem diante deles até ali, mas antes nunca tinham sido vistas. Minha garganta sufocada gritou de volta todos os desaforos que meus ouvidos passivamente escutaram durante todos aqueles anos, enquanto uma chuva de sapos voava de volta em direção a cada uma das pessoas que tinha me ofendido até ali. Nenhuma agressão ficou sem resposta e uma imensa vontade de brigar se apossou de mim. Mas eram brigas lindas, com pessoas que antes tinham estado confortáveis pisoteando a minha ingenuidade. Eu soquei cada uma delas na cara até ficar cansada e sorridente demais pra continuar. 

Quando eu olhei direito, o cenário também tinha mudado. Agora eu estava em uma praia e Iemanjá me sorria com seus lábios salgados enquanto eu brincava com um monte de novos amigos sem precisar brigar com nenhum deles. 

E meu coração, que antes pensava na morte com tanta saudade, finalmente deixou de estar tão ansioso por ela. Plutão abriu a porta do inferno e eu, finalmente, pude sair de lá e seguir em paz meu caminho em direção à luz.