Dezessete anos
Já era a terceira vez no mês que voltava à ilha pra procurá-la, mas novamente ela não estava. Às vezes, passava dias, até semanas, esperando que ela chegasse, mas suas visitas eram raras. Era uma espera solitária, dolorosa, que ele preenchia pensando nela, em sua beleza, na suavidade do seu canto, que foi a coisa mais doce que já ouviu em sua vida.
A primeira vez que viu a sereia foi por acaso, após uma tempestade que, turvando todo o mar com ventos fortes de um momento pro outro, fez com que ele procurasse abrigo na ilha. Depois de uma noite inteira em guarda, cochilando de leve para vigiar qualquer animal que pudesse se aproximar, despertou com um jorro súbito de água que vinha do mar. De um pulo, levantou-se assustado, crendo-se em perigo, quando, julgando que ainda sonhava, viu a mulher curvilínea e encantadora que olhava pra ele de dentro da água.
Seus olhos mal podiam acreditar naquela visão celestial. Que cabelos lindos! Que rosto harmonioso de feminino... de todas as coisas que já havia visto, com certeza era a mais sedutora e mais maravilhosa. Quando o viu, ela sorriu pra ele com malícia e abriu seus lábios para cantar como um anjo no coro celestial. Imediatamente, ao ouvir aquele som, entrou em estado de graça, sentindo-se como se falasse com o próprio Deus.
Ficou com ela enquanto pôde, o tempo todo em que ela esteve na ilha. Foram três dias de alegria, até que ela, assim como veio, se foi. E ele passou mais uma semana por lá esperando, até que seu deu conta de que a espera era vã e voltou ao continente.
Entretanto, seus dias no continente eram preenchidos com a lembrança daquela visão insone e idílica. Quantas pessoas teriam a chance, em toda uma vida, de ver um ser tão mítico de perto, de estar com ela e ouvi-la cantar pra si? Ele precisava de mais, queria mais uma dose daquele encanto e foi com esse pensamento que passou os dezessete anos seguintes indo e voltando da ilha, sempre a esperar que ela voltasse, sem nunca mais a encontrar.

0 Comments:
Postar um comentário
<< Home