Passagem
O sino da igreja tocou lá no fim da rua: eu estava livre!
Flutuei pelo que antes foi a minha vida, olhando tudo com calma e curiosidade. Muitas vezes me chocava o que eu via… como aquilo teria sido possível?
Mas eu não me detinha em nada daquilo, seguia deslizando pra uma nova dimensão que pouco a pouco, como uma miragem que inesperadamente se torna real, foi se materializando.
E eu seguia olhando tudo com calma e curiosidade, mas agora meu coração estava feliz e em paz. Apareceram, pouco a pouco, pessoas que eram do mesmo feitio que eu e que entendiam tudo que eu dizia com uma perfeição que eu nunca tinha visto antes. Elas viam o mundo e o entendiam da mesma forma que eu e isso me assustou a princípio, mas depois foi como descobrir que eu era um peixe no meio de um cardume enorme e lindo. Esse sentimento me inundou de um prazer tão grande que eu fiquei sem saber se eu estava mesmo viva ou se tinha morrido e ido pra um céu tão cheio de estrelas que a beleza doía nos meus olhos.
E esse mar onde o cardume nadava juntinho tinha tudo que eu precisava. Eu estava em paz e segura lá e não havia nenhuma previsão de mudança.
Então meu corpo se relaxou sobre a Terra e eu finalmente entendi a graça da vida.

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