Os olhos negros da morte
Série Superpoderes 1 - Cegueira
Apesar de cego, Ramiro vivia bem. A cegueira veio ao mundo junto com ele. Era quase uma pessoa por si própria, uma pessoa com quem aprendeu a conviver nesse mundo de pessoas que têm olhos perfeitos, mas nem sempre enxergam melhor a vida que ele. Seus olhos eram o seu coração e ele desde cedo aprendeu que era somente disso que precisava para se guiar.
Norma, por exemplo, ele via com clareza. Norma tinha um hálito maravilhoso, cujo cheiro ou sabor nunca se alteravam. A respiração dela era forte, quase de uma atleta. A energia que ela emanava, era como uma corrente elétrica, que ligava dentro dele um rádio que tocava só músicas alegres e de amor. Por um golpe da sorte, Norma também gostou de Ramiro. Afinal o amor, assim como ele, também era cego e, um pouquinho depois que se conheceram, casaram-se. Mas casaram-se por um motivo especial: Norma estava grávida. Vinha aí uma mocinha.
Ramiro teve crises aflitivas pela repetição de um só pensamento: será cega como eu? Não, não nasceu cega. Sem os olhos, Ramiro recebeu ao colo seu primeiro filho. Cheirava, tocava, ouvia, absorvia tudo o que emanava daquele ser cuja pureza e beleza quase divina eram visíveis ao seu coração. Ramiro não cabia em si: era quase mais amor do que ele podia suportar. Norma e a filha eram os tesouros mais preciosos daquele homem simples.
Aquele, entretanto, era um cego peralta. Tinha o hábito diário de caminhar pela praia para sentir o vento das ondas e a vibração do ar, para saber se a maré estava alta ou baixa, se o mar estava bravo ou calmo. No final do passeio, dependendo dos humores do mar, entrava na água para senti-la lambendo seu corpo com sua língua gelada e lisa. Ramiro amava aquela sensação, amava o mar.
Depois que a filha aprendeu a caminhar, passou a levá-la consigo nos passeios. Apesar de todos os pedidos da esposa, um dia, num deles, entrou com ela n’água. Sua alegria foi indescritível. Era ele, Ramiro, com duas das coisas que mais amava: o mar, com seu barulho de vida, e sua filha, com a sua própria vida dentro de si. Era muita felicidade. Ramiro, tão embevecido ouvindo as gargalhadas de prazer da filha, esqueceu de ouvir o barulho das ondas e, no meio do seu devaneio, foi atingido por uma delas. Uma onda forte, grande, negra. Ramiro se perdeu nas águas.
Ele só pensava em sua filha, queria salvá-la, mas ela tinha escapado dos seus braços. Suas lágrimas confundiam-se com as águas. Enquanto a força das ondas lhe empurrava pra cima e pra baixo, batendo com ele na areia do fundo, enchendo seus ouvidos e sua boca daquele caldo arenoso, fazendo seu corpo rodopiar sem direção, imaginava quem poderia ser um pai pior do que ele. Tantas vezes a esposa lhe pedira! E ele ali, fazendo tudo o que era proibido, implorando ao destino pra levar embora aquilo que mais amava. Mexia desesperadamente os braços e as pernas no turbilhão na esperança de tocá-la mas não vinha nada, nem uma concha.
Conseguiu ir à superfície e tomar fôlego, implorando a Deus que lhe permitisse achar sua pequena. Concentrou-se no seu coração e no seu desejo de encontrá-la. Mais tempo passado, nada. Ramiro desceu mais uma vez e, passada uma eternidade, subiu novamente já desanimado e com o corpo trêmulo de medo e remorso. Lá em cima, como quem ouve o couro dos anjos, ouviu o choro da menina vindo de um lugar distante. Sua filha estava viva, fora carregada pela água para a areia. Como quem toca na imagem de um santo, Ramiro tocou a carne da sua carne. Nunca, jamais, esqueceria a visão dos olhos negros da morte e nem o cheiro de seu hálito ácido tão perto da sua face.
Norma, por exemplo, ele via com clareza. Norma tinha um hálito maravilhoso, cujo cheiro ou sabor nunca se alteravam. A respiração dela era forte, quase de uma atleta. A energia que ela emanava, era como uma corrente elétrica, que ligava dentro dele um rádio que tocava só músicas alegres e de amor. Por um golpe da sorte, Norma também gostou de Ramiro. Afinal o amor, assim como ele, também era cego e, um pouquinho depois que se conheceram, casaram-se. Mas casaram-se por um motivo especial: Norma estava grávida. Vinha aí uma mocinha.
Ramiro teve crises aflitivas pela repetição de um só pensamento: será cega como eu? Não, não nasceu cega. Sem os olhos, Ramiro recebeu ao colo seu primeiro filho. Cheirava, tocava, ouvia, absorvia tudo o que emanava daquele ser cuja pureza e beleza quase divina eram visíveis ao seu coração. Ramiro não cabia em si: era quase mais amor do que ele podia suportar. Norma e a filha eram os tesouros mais preciosos daquele homem simples.
Aquele, entretanto, era um cego peralta. Tinha o hábito diário de caminhar pela praia para sentir o vento das ondas e a vibração do ar, para saber se a maré estava alta ou baixa, se o mar estava bravo ou calmo. No final do passeio, dependendo dos humores do mar, entrava na água para senti-la lambendo seu corpo com sua língua gelada e lisa. Ramiro amava aquela sensação, amava o mar.
Depois que a filha aprendeu a caminhar, passou a levá-la consigo nos passeios. Apesar de todos os pedidos da esposa, um dia, num deles, entrou com ela n’água. Sua alegria foi indescritível. Era ele, Ramiro, com duas das coisas que mais amava: o mar, com seu barulho de vida, e sua filha, com a sua própria vida dentro de si. Era muita felicidade. Ramiro, tão embevecido ouvindo as gargalhadas de prazer da filha, esqueceu de ouvir o barulho das ondas e, no meio do seu devaneio, foi atingido por uma delas. Uma onda forte, grande, negra. Ramiro se perdeu nas águas.
Ele só pensava em sua filha, queria salvá-la, mas ela tinha escapado dos seus braços. Suas lágrimas confundiam-se com as águas. Enquanto a força das ondas lhe empurrava pra cima e pra baixo, batendo com ele na areia do fundo, enchendo seus ouvidos e sua boca daquele caldo arenoso, fazendo seu corpo rodopiar sem direção, imaginava quem poderia ser um pai pior do que ele. Tantas vezes a esposa lhe pedira! E ele ali, fazendo tudo o que era proibido, implorando ao destino pra levar embora aquilo que mais amava. Mexia desesperadamente os braços e as pernas no turbilhão na esperança de tocá-la mas não vinha nada, nem uma concha.
Conseguiu ir à superfície e tomar fôlego, implorando a Deus que lhe permitisse achar sua pequena. Concentrou-se no seu coração e no seu desejo de encontrá-la. Mais tempo passado, nada. Ramiro desceu mais uma vez e, passada uma eternidade, subiu novamente já desanimado e com o corpo trêmulo de medo e remorso. Lá em cima, como quem ouve o couro dos anjos, ouviu o choro da menina vindo de um lugar distante. Sua filha estava viva, fora carregada pela água para a areia. Como quem toca na imagem de um santo, Ramiro tocou a carne da sua carne. Nunca, jamais, esqueceria a visão dos olhos negros da morte e nem o cheiro de seu hálito ácido tão perto da sua face.

3 Comments:
Nossaaaaaaaaaaaaaaa Peiti, vc me contou essa, mas lendo e imaginando a estória cheguei me arrepiar......
Nota 100000000000000000000000000
Beijos,
Piu
Perfeito !!! Graças a Deus a menininha não morreu
Naldinho
Graças a Deus, não, pô! Graças a mim, fui eu que escrevi a história! Me aparece cada uma...
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