Encantadora de Serpentes
Quando ela me olha, com aquele sorriso doce nos olhinhos puros (sim, porque ela sorri com os olhos) eu me enterneço inteiro. Enquanto ela fala e me delicia com seus gestos delicados de anjo emplumado, eu tenho ganas de tomá-la inteira, de fazê-la minha, não só no sentido carnal da palavra, mas na amplitude total do verbo pertencer. Eu queria, na verdade, torná-la parte de mim, como um braço ou uma perna, como alguém de quem ela não pudesse se afastar, mesmo que quisesse.
E então vejo meu anjo, para desgosto do meu coração ciumento e fraco de paixão, cometer o pecado de olhar com o mesmo sorriso infantil para um futuro ao qual não pertenço. Ela me diz que quer conhecer o mundo e as pessoas, quer viver coisas novas, quer bater suas asas por aí. E me fala com tanta ingenuidade das suas pretensões, que vejo que ela não julga o mal que essas palavras têm o poder de me fazer. Tenho vontade perguntar, aos berros, o que será de mim, se ela se for. Pedir a ela, em franco desespero, que me diga em que outros olhos encontrarei essa doçura com que alimento meus sonhos. Pedir-lhe também, aos prantos, que me informe quem mais, além dela, pode vestir com tanta perfeição a fantasia de mulher perfeita que venho costurando com tanto carinho ao longo dos anos em que vivi até aqui.
Ao invés disso, fico mudo pois mesmo que as palavras que saem de sua boca sejam como espadas que me ferem o peito, a doçura no seu sorriso é como uma mão que me acaricia o coração. Enquanto ela me hipnotiza com os seus olhos e me dilacera com suas palavras, eu penso em uma forma de fugir do seu encanto, sem conseguir. Sou como a serpente, que ao som da flauta mágica da voz dela saio dançando do meu cesto, esquecendo de quem sou, esquecendo até do meu próprio veneno.
Enfim, chego à conclusão de que nenhuma revolta me salvará. Só me resta esperar resignadamente que ela, ao partir para suas aventuras como destemida amazona, não esqueça de levar o cesto onde repousa esta serpente, ansiosa por ouvir mais uma vez o chamado da sua voz, para enfim sair dançando de alegria, sob os olhos sorridentes dela.
E então vejo meu anjo, para desgosto do meu coração ciumento e fraco de paixão, cometer o pecado de olhar com o mesmo sorriso infantil para um futuro ao qual não pertenço. Ela me diz que quer conhecer o mundo e as pessoas, quer viver coisas novas, quer bater suas asas por aí. E me fala com tanta ingenuidade das suas pretensões, que vejo que ela não julga o mal que essas palavras têm o poder de me fazer. Tenho vontade perguntar, aos berros, o que será de mim, se ela se for. Pedir a ela, em franco desespero, que me diga em que outros olhos encontrarei essa doçura com que alimento meus sonhos. Pedir-lhe também, aos prantos, que me informe quem mais, além dela, pode vestir com tanta perfeição a fantasia de mulher perfeita que venho costurando com tanto carinho ao longo dos anos em que vivi até aqui.
Ao invés disso, fico mudo pois mesmo que as palavras que saem de sua boca sejam como espadas que me ferem o peito, a doçura no seu sorriso é como uma mão que me acaricia o coração. Enquanto ela me hipnotiza com os seus olhos e me dilacera com suas palavras, eu penso em uma forma de fugir do seu encanto, sem conseguir. Sou como a serpente, que ao som da flauta mágica da voz dela saio dançando do meu cesto, esquecendo de quem sou, esquecendo até do meu próprio veneno.
Enfim, chego à conclusão de que nenhuma revolta me salvará. Só me resta esperar resignadamente que ela, ao partir para suas aventuras como destemida amazona, não esqueça de levar o cesto onde repousa esta serpente, ansiosa por ouvir mais uma vez o chamado da sua voz, para enfim sair dançando de alegria, sob os olhos sorridentes dela.

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